O Encontro no Pó
13 hours and 42 minutes ago
Os passos de Katherine na terra ressequida eram o único som, além do vento, enquanto ela descia a colina em direção a Sanctuary Hills. A poeira fina subia em pequenas nuvens a cada pisada, agarrando-se à barra do uniforme azul da Vault-Tec como se quisesse arrastá-la de volta para o subsolo. O Pip-Boy em seu pulso emitia cliques baixos, monitorando algo que ela não se importava mais em verificar.
Sanctuary Hills, à medida que se aproximava, revelava mais de suas feridas. As casas que antes se alinhavam como soldados em formação agora estavam curvadas, algumas completamente desabadas, outras sustentando-se por pura teimosia estrutural. O asfalto das ruas havia se transformado em um mosaico de rachaduras onde cresciam ervas daninhas — não as ervas verdes que Katherine recordava, mas plantas pálidas, doentias, de um verde acinzentado que parecia absorver a luz em vez de refleti-la.
Ela caminhou pela Spruce Lane. Os números das casas ainda estavam visíveis em algumas fachadas — 219, 221, 223 — mas as tintas haviam descascado, e o metal estava corroído. A casa dos Abernathy era apenas um amontoado de madeira podre e telhas quebradas. A dos MacCready tinha a porta da frente escancarada, balançando monotamente ao vento.
Número 221.
Katherine parou em frente ao que restou de sua casa. A House of Tomorrow que Nate comprara com o subsídio militar, onde Shaun dera seus primeiros choros, onde Codsworth aprendera a fazer café com canela — não passava de uma concha vazia. O telhado afundara no centro como um osso quebrado, e uma das paredes laterais estava completamente ausente, deixando o interior exposto como um diorama de museu. O que um dia foi a sala de estar agora era uma pilha de detritos coberta por uma espessa camada de poeira e fuligem. A cerca branca, claro, não existia mais.
Katherine sentiu um nó na garganta. Mas não havia tempo para luto. Ela precisava de pistas.
— Olá? — chamou, a voz saindo mais fraca do que pretendia. — Alguém?
Silêncio. Apenas o rangido do letreiro metálico e o vento.
Ela deu a volta pela lateral da casa, pisando sobre cacos de vidro e pedaços de madeira carbonizada. O quintal dos fundos era irreconhecível — o balanço que Nate construíra para Shaun estava ali, ou o que restava dele: duas correntes enferrujadas penduradas de uma viga torta, o assento há muito desaparecido.
— Olá? — repetiu, mais alto.
Um som. Vindo de dentro da casa. Não um rangido, não um estalo — algo mecânico, um zumbido familiar, como o de um motor pequeno esforçando-se para funcionar.
Katherine se virou rapidamente, a mão indo instintivamente para o bolso onde guardava a pistola.
Da escuridão do que restava da cozinha, uma forma emergiu. Flutuante. Circular. Três braços mecânicos pendendo como tentáculos cansados, um olho ocular brilhando em um tom azul fraco, pálido, como uma estrela moribunda.
O corpo do robô estava manchado, a pintura azul original da General Atomics descascada em placas, revelando o metal enferrujado por baixo. Amassados cobriam sua carcaça, e uma das ferramentas — um bico de Bunsen — estava torto, como se tivesse sido usado para algo que não deveria. Suas junções emitiam pequenos estalos a cada movimento, e um dos braços parecia parcialmente paralisado, pendendo em um ângulo estranho.
Mas o olho ocular — aquele olho azul — ainda brilhava. Ainda via. Ainda reconhecia.
— Codsworth? — sussurrou Katherine, os olhos arregalados.
O robô flutuou um metro para fora da sombra, seu motor chiando baixinho. O olho ocular se contraiu, dilatou, contraiu novamente — um gesto que Katherine aprendeu a interpretar como surpresa, como choque, como a versão metálica de piscar incrédulo.
— Minha... senhora? — A voz do robô estava diferente. Mais grave, mais rouca, como se duzentos anos de silêncio tivessem enferrujado seu sintetizador vocal. Mas o timbre — aquele timbre inconfundível, educado, um pouco formal demais — era o mesmo. — Minha senhora, Katherine? É... é realmente a senhora?
Katherine não conseguiu responder de imediato. Sua boca abriu e fechou várias vezes, e ela sentiu os olhos marejarem — não de tristeza, mas de algo que não sabia nomear. Choque. Alívio. Nostalgia. Tudo ao mesmo tempo.
— Codsworth — conseguiu dizer finalmente. — Você... você está vivo. Você ainda está aqui.
O robô flutuou mais um pouco, saindo completamente das sombras. A luz do sol incidiu sobre sua carcaça, revelando cada arranhão, cada mancha de ferrugem, cada reparo improvisado — fita adesiva em uma junta, um pedaço de arame segurando uma das presas de manipulação.
— É claro que estou aqui, minha senhora — disse Codsworth, e havia orgulho em sua voz metálica, um orgulho que beirava a indignação. — A senhora realmente achou que um pouco de radiação iria intimidar o orgulho da General Atomics Internacional? Nós, os modelos Mr. Handy, somos construídos para durar. Resistência a impactos, a temperaturas extremas, a... bem, a praticamente tudo, exceto talvez ao tédio.
Katherine riu — um riso curto, quase histérico, que ecoou nas ruínas.
— Tédio?
— Dois séculos, minha senhora. — A voz de Codsworth baixou um tom, adquirindo uma nota de pesar. — Dois séculos sem ninguém com quem conversar. Sem ninguém para servir. Sem café para passar, sem chão para encerar, sem pratos para lavar. — Ele fez uma pausa, e seu olho ocular piscou lentamente. — Foi... horrível.
Katherine deu um passo à frente, estendendo a mão como se fosse tocar o robô. Mas hesitou a centímetros do metal enferrujado.
— Você não está com uma aparência muito boa — disse Codsworth, seu olho ocular percorrendo o uniforme sujo, os cabelos emaranhados, o rosto marcado pela fadiga e pelo choro recente. — Desculpe a franqueza, minha senhora, mas é melhor que o patrão Nate não a veja nesse estado. Ele teria um ataque.
O nome de Nate perfurou o peito de Katherine como uma agulha.
— Nate — repetiu ela, a voz falhando.
— Sim, o patrão. Onde ele está? Ainda no Refúgio? — Codsworth flutuou em um pequeno círculo, como se procurasse por trás de Katherine. — Ele não a acompanhou? Ou está... está vindo atrás? Com o pequeno Shaun?
Katherine fechou os olhos. As lágrimas que ameaçavam cair desde que saíra do Refúgio finalmente rolaram, quentes e salgadas, abrindo sulcos na poeira que cobria seu rosto.
— Mataram Nate, Codsworth — disse ela, a voz quebrada. — No Refúgio. Enquanto estávamos congelados. Eles entraram, abriram a cápsula dele, e... e...
Ela não conseguiu terminar.
O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros. Codsworth ficou imóvel — não o imóvel de um robô desligado, mas o imóvel de uma criatura processando uma dor que sua programação não o preparara para sentir. Seu olho ocular mudou de azul para um âmbar profundo, quase laranja, e um zumbido baixo emanou de seu chassi — o som de circuitos trabalhando em sobrecarga.
— E o pequeno Shaun? — perguntou, com uma delicadeza que parecia impossível em uma voz metálica. — Ele ainda está com a senhora?
Katherine sentiu o fogo subir por seu peito, a indignação que a mantivera viva nos túneis, a raiva que a impelira através das baratas e das portas trancadas.
— Alguém o levou, Codsworth. — A voz dela era um rosnado agora, baixo e perigoso. — Os mesmos que mataram Nate. Eles abriram a cápsula, atiraram nele, e levaram meu bebê. Roubaram meu filho.
O robô recuou alguns centímetros, como se as palavras fossem físicas e tivessem lhe dado um empurrão.
— Isso é pior do que eu pensava — murmurou Codsworth. — Muito pior.
— O quê? — Katherine franziu a testa.
— A senhora está sofrendo de paranóia induzida por fome, minha senhora. É um efeito colateral comum em situações de privação prolongada. — Ele falava como um médico diagnosticando uma doença. — Duzentos anos sem comida — duzentos anos presa em uma cápsula criogênica — isso produz alucinações, distorções da memória, confabulações. O cérebro humano não foi projetado para...
— Duzentos anos? — Katherine o interrompeu, os olhos azuis se estreitando. — O que você está dizendo, Codsworth?
— Que a senhora ficou congelada por duzentos anos, minha senhora. — O robô falava com paciência, como se explicasse algo óbvio para uma criança teimosa. — Na verdade, um pouco mais. Duzentos e dez anos, para ser preciso. A guerra foi em 2077. Agora é... bem, meus sensores de data não estão muito precisos, mas o holodisco que encontrei menciona o ano de 2287. Portanto, duzentos e dez anos. Aproximadamente.
Katherine sentiu o chão se mover sob seus pés — não literalmente, mas como se a realidade estivesse se rearranjando ao seu redor. Duzentos e dez anos. Ela pensou nos registros que lera, nos relatórios da equipe de segurança, nas câmaras de criogenia. O tempo passara, sim. Mas ela imaginara décadas, talvez um século. Não dois séculos e uma década.
— Não — disse ela, balançando a cabeça. — Isso é impossível. Eu acordei. A criogenia foi suspensa. Eu vi as pessoas nas câmaras... eu vi Nate...
— Viu o que seu cérebro queria que visse, minha senhora. — Codsworth flutuou mais perto, seu olho ocular fixo no rosto dela. — A senhora está em estado de choque. Eu já vi isso antes — bem, não vi, mas li sobre — em sobreviventes de desastres prolongados. A senhora precisa de comida, de água, de descanso. Precisa de...
— Eu sei o que eu vi! — Katherine quase gritou, dando um passo à frente. A pistola em seu bolso balançou com o movimento. — Eram pessoas reais, Codsworth. Eles mataram Nate. Mataram ele na minha frente. Levaram Shaun. Você acha que eu inventaria isso?
O robô ficou em silêncio por um longo momento. Seu olho ocular mudou de âmbar para um vermelho profundo, depois para azul novamente.
— A senhora nunca foi mentirosa — disse Codsworth, mais para si mesmo do que para ela. — Isso é verdade. Mesmo quando a senhora não queria contar algo à sua mãe, a senhora simplesmente omitia. Nunca inventava.
— Exatamente — disse Katherine, a voz firme agora. — Eu não estou inventando, Codsworth. Alguém levou Shaun. Alguém matou Nate. E eu vou descobrir quem.
O robô emitiu um som que poderia ser um suspiro — se robôs pudessem suspirar.
— Isso é... preocupante — admitiu Codsworth. — Se a senhora está certa — e não estou dizendo que não está, apenas que é uma possibilidade que minha programação precisa considerar — então o mundo é mais perigoso do que eu imaginava. E eu passei duzentos anos vendo baratas gigantes e homens esfarrapados lutando por sucata.
Katherine lembrou-se das baratas no túnel.
— As baratas são reais — disse ela. — Eu matei várias.
— Ah, sim, as baratas. — Codsworth pareceu animar-se um pouco. — Criaturas notavelmente resistentes, não é mesmo? Dizem que sobreviveriam até ao fim do universo. Pessoalmente, acho que são um pouco nojentas, mas quem sou eu para julgar?
Katherine respirou fundo, tentando organizar os pensamentos. A revelação do tempo — duzentos e dez anos — ainda ecoava em sua mente como um sino que não parava de vibrar. Seu filho, se estivesse vivo, seria um adulto. Ou talvez nem estivesse mais vivo. A ideia era tão insuportável que ela a empurrou para o fundo da mente.
— Codsworth — disse ela, com a calma forçada de quem está à beira do colapso. — Você sabe de alguma coisa? Alguma pista sobre para onde Shaun pode ter sido levado? Alguma informação sobre o que aconteceu no Refúgio depois que... depois que fomos congelados?
O robô hesitou. Seu olho ocular piscou três vezes, um padrão que Katherine nunca vira.
— Bem — começou ele, a voz hesitante —, eu não sei de nada, minha senhora. E lamento profundamente por isso. As bombas vieram muito rápido. A senhora e sua família foram embora muito rápido. Por um tempo, eu pensei que todos estivessem mortos. Pensei que nunca mais veria nenhum de vocês. — Sua voz falhou ligeiramente no final. — Pensei que iria passar a eternidade falando sozinho.
— Mas você não falou sozinho — disse Katherine, suavemente. — Você ficou. Você manteve a casa. Você...
— Tentei, minha senhora. — Codsworth flutuou em um pequeno círculo, apontando com um braço para os destroços ao redor. — Passei os primeiros dez anos tentando manter o piso encerado. Mas nada tira precipitação nuclear de madeira envernizada. Acredite, tentei de tudo. Cera, solvente, até uma solução de bicarbonato que li em um manual antigo. Nada funcionou.
Katherine quase sorriu. Era tão Codsworth — preocupar-se com o brilho do piso enquanto o mundo queimava.
— O importante é que você está aqui agora — disse ela. — E nós precisamos nos concentrar. Encontrar Shaun. Descobrir o que aconteceu.
— Concentrar. Sim. Concentração. — O robô pareceu sacudir-se mentalmente. — A senhora tem razão, como sempre. Foco no objetivo.
Ele flutuou até Katherine, seus braços mecânicos se agitando como se quisesse abraçá-la, mas se contendo no último momento — talvez por protocolo, talvez por não saber como fazê-lo.
— Eu tenho algo para a senhora — disse Codsworth, de repente solene. — Algo que guardei por todos estes anos. Um holodisco.
Katherine ergueu as sobrancelhas.
— Um holodisco?
— Sim. O patrão Nate o escondeu no criado-mudo do quarto. Na verdade, creio que ele pretendia entregá-lo à senhora como uma surpresa. Um presente. Uma lembrança. — A voz de Codsworth ficou mais suave. — Mas então aconteceu tudo. A guerra. O Refúgio. E ele não teve tempo.
O robô flutuou até um amontoado de detritos que antes fora a entrada da casa e, com um braço, removeu uma placa de madeira carbonizada. Por baixo, um pequeno compartimento metálico — uma caixa de segurança portátil, enferrujada, mas ainda intacta. Com uma delicadeza que contrastava com sua aparência desgastada, Codsworth abriu a caixa.
Dentro, sobre uma camada de espuma de borracha agora ressecada e quebradiça, repousava um disco de vidro escuro — um holodisco, daqueles que a Vault-Tec e outras corporações usavam para armazenar dados antes da guerra. A superfície refletia a luz do sol, e Katherine podia ver pequenas marcas de desgaste nas bordas, como se alguém o tivesse manuseado muitas vezes.
— O que há nele? — perguntou Katherine, estendendo a mão. O disco era mais pesado do que parecia, e frio.
— Acredito que seja uma mensagem para a senhora, minha senhora. — Codsworth inclinou o corpo, um gesto que Katherine interpretou como timidez. — Meus protocolos de etiqueta não me permitem ouvi-lo sozinho. Seria... uma invasão de privacidade. Então guardei-o. Esperei. Esperei duzentos anos por alguém que pudesse reproduzi-lo.
Katherine sentiu o peso do disco em suas mãos. Uma mensagem de Nate. A última coisa que ele lhe deixara.
As lágrimas ameaçaram voltar, mas ela as conteve.
— Qualquer dispositivo padrão de leitura de holodiscos deve reproduzi-lo — explicou Codsworth, apontando com um braço para o pulso de Katherine. — Como o Pip-Boy que a senhora carrega. Eles eram compatíveis.
Katherine olhou para o Pip-Boy em seu braço esquerdo. A tela verde ainda piscava, exibindo seus biossinais, níveis de radiação, hora local — 14:23, 23 de outubro de 2287, duzentos e dez anos depois do fim do mundo.
— E quanto a Shaun? — perguntou ela, guardando o holodisco no bolso do uniforme, ao lado dos carregadores sobressalentes. — Devemos procurá-lo pela vizinhança? Talvez ele tenha... talvez ele esteja por perto.
A dúvida em sua voz era evidente. Shaun, se estivesse vivo, teria duzentos e dez anos — ou menos, se também tivesse passado tempo em criogenia. Mas não fazia ideia de onde ele poderia estar, nem por onde começar a procurar.
Codsworth observou seu rosto por um momento, seu olho ocular brilhando em um azul suave.
— A senhora parece em dúvida. Compreensível, dada as circunstâncias. — Ele se moveu, flutuando em um arco que a rodeou, posicionando-se ao seu lado. — Permita-me acompanhá-la. Conheço esta área como a palma da minha mão — por assim dizer. Se houver qualquer sinal do pequeno Shaun, ou de quem o levou, nós o encontraremos.
— Você faria isso? — perguntou Katherine, a gratidão e o cansaço se misturando em sua voz.
— Minha senhora — disse Codsworth, e havia nessa palavra um século de saudade —, faz duzentos e dez anos que não tenho ninguém para servir. Ninguém para proteger. Ninguém para... amar. Se a senhora me permite usar essa palavra.
Katherine tocou a carcaça enferrujada do robô com a ponta dos dedos. O metal estava frio, áspero, mas sob ele, ela podia sentir a vibração do motor — a vida mecânica que teimava em existir.
— Vamos — disse ela. — Antes que o dia acabe.
Codsworth flutuou à sua frente, seus braços se ajustando em posições que pareciam prontas para a ação.
— Acompanhe-me, minha senhora. Conheço um caminho.
E juntos — a mulher de uniforme azul manchado de sangue verde e o robô descascado pela radiação — seguiram pelas ruínas de Sanctuary Hills, em direção ao desconhecido.