O Túnel para a Superfície
13 hours and 55 minutes ago
A porta do túnel de evacuação rangeu contra Katherine enquanto ela a pressionava com o ombro, mas não cedeu. Era pesada — não de aço comum, mas de algum material mais denso, projetado para resistir a explosões, radiação, e talvez ao próprio fim do mundo. A placa enferrujada dizia a verdade: aquela passagem era restrita ao Supervisor, e o Supervisor não queria visitas.
Katherine recuou alguns passos e examinou a porta. Não havia maçaneta do lado de fora, nem qualquer mecanismo visível de abertura. Apenas o metal liso e frio, e ao lado, embutido na parede de concreto, um pequeno painel eletrônico com um leitor de crachá e um teclado numérico. O leitor estava escuro — sem energia, talvez, ou desativado há séculos. O teclado, porém, ainda emitia um leve brilho fosforescente, como se aguardasse um código.
— Código — murmurou Katherine, passando a mão pelo rosto suado. — Não sei nenhum código.
Voltou à escrivaninha do Supervisor, sentou-se novamente na cadeira de couro rachado e examinou o terminal. As pastas estavam ali, os arquivos abertos, mas em algum lugar deveria haver um comando — uma sequência, uma senha, uma chave digital para destrancar a passagem.
Ela encontrou na pasta chamada "Segurança do Perímetro". O arquivo se chamava simplesmente "Túnel — Protocolo de Evacuação".
Protocolo de Evacuação — Supervisor apenas
O túnel de evacuação deve permanecer trancado em todas as circunstâncias, exceto em caso de emergência extrema ou por ordem direta da Vault-Tec. Para destravar a porta do túnel a partir do terminal do Supervisor, o comando é EVAC_TRUST_111. A confirmação será solicitada. Após a confirmação, a porta permanecerá destrancada por 60 segundos, tempo suficiente para o Supervisor e sua equipe imediata atravessarem. Após esse período, a porta será selada novamente automaticamente.
Katherine digitou o comando sem hesitar. A tela piscou em vermelho, depois em verde, e uma mensagem apareceu: "Porta do túnel destrancada. Você tem 60 segundos."
Ela se levantou, pronta para correr de volta ao túnel, mas algo a deteve. Seus olhos percorreram a sala do Supervisor novamente, agora com um olhar diferente — não de busca por informações, mas de sobrevivência. Ela estava prestes a sair para o desconhecido, para um mundo que ela não via há duzentos anos, um mundo que os relatórios da Vault-Tec descreviam como radioativo, hostil, povoado por monstros. Ela precisava de algo mais do que um cassetete manchado de sangue verde.
Na gaveta da escrivaninha — a primeira que abriu — ela encontrou a pistola.
Era uma arma de aspecto militar, toda em metal escuro, com punho de borracha texturizada. O cano era curto, grosso, e o carregador estava cheio — Katherine o removeu para verificar, lembrando-se vagamente de Nate explicando como fazer aquilo em uma das raras noites em que ele falava do exército. As balas eram de calibre 10 mm, reluzentes sob a luz do terminal, cada uma um pequeno cilindro de morte em potencial.
Do lado da pistola, em um compartimento acolchoado dentro da gaveta, dois carregadores sobressalentes e uma caixa de munição avulsa. Katherine guardou tudo nos bolsos do uniforme — os carregadores pesavam, mas ela não se importou.
A pistola em sua mão era estranha. O peso, o equilíbrio, a forma como o metal frio se ajustava à sua palma. Ela nunca atirara em nada na vida. Em Nova York, na faculdade de direito, a única arma que tocara fora o spray de pimenta que sua mãe insistira que ela carregasse. Mas agora não havia escolha. O mundo lá fora, e até mesmo o túnel adiante, poderia estar cheio de criaturas como as baratas que ela enfrentara — ou piores.
— Nate — sussurrou ela, apertando o punho da arma. — Você me ensinaria se estivesse aqui.
Mas Nate não estava. Então ela teria que aprender sozinha.
Antes de sair, seus olhos caíram sobre o que parecia uma vitrine embutida na parede atrás da escrivaninha — um compartimento de vidro blindado, iluminado por LEDs azuis que ainda funcionavam, milagrosamente. Dentro, apoiada em suportes de metal, uma arma diferente de tudo que Katherine já vira.
Era estranha, quase orgânica em suas curvas. O corpo principal parecia feito de um polímero azul-claro, com detalhes em cromo e uma série de cilindros giratórios na parte frontal, semelhantes a uma metralhadora de tambor. Mas o que chamava a atenção era o bocal — um cone largo, cercado por anéis de cobre, que emitia um brilho residual, como se ainda estivesse carregada de energia residual. Ao lado da arma, pequenas células de energia — idênticas às que o Supervisor descrevera em seu registro — estavam dispostas em um suporte giratório.
— O Criogenizador — disse Katherine, aproximando-se do vidro.
A arma criogênica. O protótipo que o Supervisor mencionara. Cinco disparos por célula. Congelava o alvo instantaneamente. Testes militares em andamento. A Vault-Tec mantinha aquilo ali, em uma tranca de vidro, como um troféu ou uma garantia de último recurso.
Katherine examinou a vitrine. Não havia maçaneta, nem fechadura aparente. Apenas o vidro grosso e, na lateral, um painel de controle com um leitor biométrico — impressão digital, talvez, ou leitura da retina.
— Não... — murmurou ela, pressionando os dedos contra o leitor. Nada aconteceu. Tentou com a outra mão. Nada.
O vidro não cedeu. A arma permaneceu ali, dentro de sua gaiola luminosa, inalcançável.
Katherine suspirou, batendo com a palma no vidro em um gesto de frustração.
— Depois — disse ela, olhando para o Criogenizador como se fizesse uma promessa. — Se eu voltar. Se eu sobreviver. Eu vou descobrir como abrir essa maldita tranca.
Guardou a pistola no bolso lateral do uniforme — não havia coldre, mas o tecido era resistente e a arma ficou firme — e correu de volta para a porta do túnel. Os sessenta segundos estavam quase no fim; ela podia ouvir o zumbido do mecanismo de travamento se preparando para reativar.
Ela atravessou a porta no último momento.
O túnel era estreito e baixo — Katherine tinha que abaixar a cabeça em alguns trechos para não bater nas vigas de metal do teto. O piso era uma grade metálica que rangia sob suas botas, e abaixo dela, a escuridão absoluta. As paredes eram de concreto bruto, sem pintura, úmidas como as de uma caverna. O ar cheirava a ferrugem, a ozônio, e novamente aquele odor de vida que ela aprendera a associar às baratas gigantes.
Falando nelas.
A primeira surgiu de um duto de ventilação na parede, caindo na sua frente com um ruído molhado. Era maior do que as do corredor — talvez o tamanho de um bezerro — e suas antenas se agitavam com uma fúria que parecia pessoal.
Katherine não hesitou. Sacou a pistola.
Suas mãos tremiam. Ela não sabia desengatar a segurança — Nate mostrara uma vez, mas ela não prestara atenção direito, achando que nunca precisaria. Seus dedos buscaram o mecanismo, encontraram um botão na lateral, pressionaram. Um clique seco. A segurança estava desativada.
A barata avançou.
Katherine ergueu a arma com as duas mãos, como vira nos filmes, mirou no centro daquela massa escura e pressionou o gatilho.
O disparo foi mais alto do que ela imaginava — muito mais alto. O estampido ecoou pelo túnel como um trovão, fazendo seus ouvidos zumbirem. O recuo jogou seus braços para cima, e a bala passou raspando no teto, arrancando lascas de concreto.
— Droga! — gritou Katherine, reajustando a mira.
A barata estava a apenas dois metros agora. Suas mandíbulas se abriram, mostrando fileiras de dentes amarelos. Katherine mirou novamente — desta vez, mais baixa, mais perto do centro de massa — e disparou.
A bala acertou a cabeça da criatura. O exoesqueleto estilhaçou, e um jorro de líquido verde escuro espirrou nas paredes e no chão. A barata cambaleou, suas patas se contorcendo em movimentos erráticos, e então caiu de lado, imóvel.
Katherine ficou parada, a pistola ainda erguida, os ouvidos zumbindo, o peito ofegante.
— Eu atirei — disse ela, em voz alta, como se precisasse confirmar para si mesma. — Eu matei uma.
Não houve tempo para comemoração. Mais baratas surgiam do fundo do túnel — três, cinco, sete, seus olhos compostos brilhando na penumbra, suas patas produzindo aquele som horrível de tic-tic-tic-tic contra a grade metálica.
Katherine recuou enquanto atirava.
O primeiro tiro acertou uma barata na perna — ela continuou vindo, arrastando o membro mutilado. O segundo tiro errou completamente, ricocheteando na parede. O terceiro tiro acertou uma segunda barata no dorso, e o líquido verde escorreu pelo exoesqueleto rachado.
— Vamos, vamos — murmurava Katherine, recuando passo a passo, os pés tateando o chão instável.
Ela atirou de novo. E de novo. E de novo.
Os estampidos se sucediam em intervalos irregulares, e cada tiro jogava seus braços para trás, mas ela começava a entender o ritmo da arma, a antecipar o recuo. A quarta barata caiu. A quinta também. A sexta avançou por cima dos corpos das companheiras, e Katherine esperou até que estivesse a menos de um metro para atirar — o tiro acertou o centro da cabeça, e a criatura tombou tão perto que o líquido verde respingou em suas botas.
Silêncio.
Katherine baixou a arma, os braços tremendo. O carregador estava vazio — ela o removeu, como Nate a ensinara, e colocou um dos carregadores sobressalentes. O clique de encaixe foi o som mais satisfatório que ela ouvira em muito tempo.
— Quantas foram? — perguntou em voz alta. Sete? Oito? Ela perdeu a conta.
O túnel à sua frente estava vazio, por enquanto. As luzes vermelhas de emergência piscavam com mais frequência agora, como se o próprio Refúgio estivesse ofegante. O ar estava mais frio, mais úmido, e havia uma leve brisa — brisa — vindo de algum lugar adiante. Ventilação? Ou a superfície?
Katherine caminhou, a pistola sempre erguida, os olhos percorrendo cada sombra, cada duto, cada fenda no concreto. O túnel começou a subir gradualmente — primeiro um leve aclive, depois uma inclinação mais acentuada. Os degraus apareceram, irregulares, desgastados pelo tempo e pela umidade. Ela subiu um, dois, dez, cinquenta.
E então, a porta.
Era diferente de todas as outras portas do Refúgio. Não era de aço, nem de concreto, nem de metal escovado. Era uma grossa placa de ferro fundido, enferrujada nas bordas, com um volante de aço no centro — desses que se vê em filmes de submarinos, que exigem força para girar. Acima da porta, uma placa em relevo: "Saída de Emergência — Refúgio 111 — Para uso exclusivo do Supervisor".
Mas não era o que chamava a atenção de Katherine.
Ao lado da porta, pendurado em um gancho de metal cravado na parede, havia um dispositivo. Era como um relógio de pulso enorme — uma pulseira larga de couro preto, desgastado e rachado, conectada a um console retangular de metal verde-oliva. A tela do console era um visor redondo, de vidro grosso, cercado por botões e botões giratórios. No canto inferior direito, uma luz vermelha piscava fracamente.
Katherine reconheceu aquilo.
— Pip-Boy — sussurrou ela, aproximando-se.
Ela vira um igual na faculdade — um dos professores de direito tecnológico tinha um, uma edição limitada que a Vault-Tec distribuíra para universidades parceiras como material de "conscientização sobre preparação para emergências". Na época, ela achara o aparelho cafona, um brinquedo de entusiastas de pós-apocalipse.
Agora, parecia a coisa mais bela que ela já vira.
Ela tirou o Pip-Boy do gancho. O dispositivo era pesado, surpreendentemente sólido. A pulseira de couro estava ressecada, mas ainda flexível. Ela a enrolou em volta do pulso esquerdo, ajustando os furos de metal até que ficasse firme. O couro rangeu, cedeu, e então — clique — o dispositivo a prendeu.
A tela se acendeu.
Era uma luz fraca, verde-pálida, mas no escuro do túnel parecia uma estrela. Carregando... a mensagem piscou na tela. Sistema de inicialização do Pip-Boy 3000 Mk IV. Diagnóstico em andamento... data do último uso: desconhecida. Sincronizando com biossinais do usuário... concluído. Status: em modo de emergência.
Katherine olhou para a tela, fascinada. Um mapa da área apareceu — o Refúgio 111, os túneis, o elevador de superfície. Setas piscavam, mostrando a rota para a saída.
— Você vai me ajudar, não vai? — perguntou ela ao dispositivo, como se ele pudesse responder.
O Pip-Boy não respondeu, mas um novo dado apareceu na tela: "Elevador de superfície: pronto para ativação. Engate o Pip-Boy a um terminal da Vault-Tec para iniciar a sequência."
Katherine ergueu os olhos e viu, ao lado da porta de ferro, um pequeno terminal embutido na parede — igual aos que ela usara na sala de controle, mas menor, mais compacto. Ele estava ativo, sua tela verde piscando em um loop de espera.
Ela conectou o Pip-Boy ao terminal — um encaixe perfeito, como se tivessem sido projetados um para o outro.
A tela do terminal mudou.
"Dispositivo Pip-Boy identificado. Usuário: Jackson, Katherine. Permissão de emergência concedida. Iniciando sequência de ativação do elevador de superfície. Aguarde..."
Katherine esperou. Os segundos se arrastavam como horas.
"Elevador ativado. Acesso liberado. A superfície está a 38 segundos."
Um ruído metálico ecoou através da parede — o som de engrenagens gigantes se movendo, de contrapesos sendo acionados, de uma máquina antiga despertando de um sono de duzentos anos. Katherine afastou o pulso do terminal, e o Pip-Boy se desconectou com um bipe final.
Ela caminhou em direção ao elevador.
Ele estava além da porta de ferro, que agora se abrira parcialmente — apenas o suficiente para que Katherine passasse de lado. Do outro lado, uma plataforma de metal, semelhante à que a trouxera para dentro da terra, mas menor. Uma plataforma aberta, com grades baixas e um painel de controle simples: três botões. Subir. Descer. Parar.
Katherine subiu na plataforma. O metal vibrou sob suas botas, e o cheiro de ar fresco — ar verdadeiro, não o ar reciclado do Refúgio — inundou suas narinas. Lá em cima, além do poço escuro, além dos dutos e cabos e vigas de sustentação, havia um ponto de luz. Pequeno, distante, mas real.
A luz da superfície.
Katherine colocou a mão sobre o botão de subir. Mas antes de apertá-lo, olhou para trás — para o túnel escuro, para a porta de ferro semiaberta, para o Refúgio 111 que um dia foi seu túmulo e agora era sua origem.
— Eu vou encontrar você, Shaun — disse ela, não para o Refúgio, mas para o mundo lá fora, para seu filho, para si mesma. — Eu vou.
Seus olhos azuis brilharam sob a luz verde do Pip-Boy. A aliança de Nate brilhou no dedo. A pistola pesava no bolso do uniforme.
Ela apertou o botão.
O elevador tremeu, rangeu, e começou a subir.