O Covil do Supervisor
14 hours and 7 minutes ago
O corredor se estreitava à medida que Katherine avançava, as paredes de concreto aproximando-se como se o próprio Refúgio quisesse esmagá-la. As luzes de emergência vermelhas piscavam em intervalos irregulares agora — uma falha no sistema, talvez, ou apenas o cansaço de duzentos anos de operação contínua. O ar estava mais denso, mais úmido, com um cheiro que não existia na sala de controle. Um cheiro de terra, de decomposição, de algo vivo.
Foi então que ela viu a primeira.
A criatura estava parada no meio do corredor, imóvel como uma estátua grotesca. Katherine levou três segundos para processar o que seus olhos viam — e mesmo assim, o cérebro se recusava a aceitar. Era uma barata. Mas não uma barata comum, daquelas que se escondem sob a geladeira e fogem quando a luz acende. Esta tinha o tamanho de um gato grande. Seu exoesqueleto marrom-escuro brilhava sob a luz vermelha, as patas articuladas sustentando um corpo gordo e segmentado, as antenas finas se movendo lentamente no ar como dedos tateando. Os olhos negros e compostos refletiam a penumbra em milhares de pequenos pontos.
Katherine congelou.
— O quê... — sussurrou ela, recuando meio passo. O som de sua própria voz pareceu alertar a criatura. A barata virou a cabeça — ou o que servia de cabeça — na direção dela, e as antenas se agitaram mais rápido.
Katherine nunca tivera medo de baratas. Em Nova York, nos apartamentos antigos dos amigos de seus pais, ela aprendera a conviver com os insetos que surgiam nos canos e nos ralos. Mas aquilo... aquilo não era um inseto. Era um monstro. Uma aberração criada pela radiação, pelo tempo, pela falência do mundo.
Ela recuou mais um passo, e suas costas tocaram a parede. A barata avançou — não um ataque, apenas um deslocamento, mas suas patas faziam um ruído seco contra o piso de borracha. Tic-tic-tic-tic.
— Fique aí — disse Katherine, erguendo a mão como se fosse deter a criatura com a palma. — Fique aí, você...
Seus olhos caíram sobre algo caído no chão, a poucos metros dali, encostado na parede. Era um cassetete — desses de segurança, de metal preto com empunhadura de borracha. Talvez tivesse pertencido a algum dos guardas do Refúgio, abandonado em uma fuga apressada. Ou talvez fosse da própria equipe de segurança, deixado para trás quando a loucura os consumiu.
Katherine não pensou. Agiu.
Ela se abaixou, agarrou o cassetete, e ergueu-o diante de si como uma espada. O peso era bom — nem muito leve, nem pesado demais para seus braços ainda dormentes do criogenia. A empunhadura se ajustou à sua palma como se tivesse sido feita para ela.
A barata avançou novamente, agora mais rápido. Suas mandíbulas se abriram, e Katherine pôde ver fileiras de dentes minúsculos — dentes? Baratas não tinham dentes, mas aquela coisa tinha, e isso era talvez a parte mais aterrorizante.
— Vamos lá — rosnou Katherine, ajustando a postura. Ela não sabia lutar. Nunca aprendera. Mas Nate lhe ensinara uma coisa: "No desespero, a gente não luta com técnica. Luta com raiva."
A barata atacou.
Katherine girou o cassetete em um arco largo e acertou o inseto no lado da cabeça. O impacto produziu um som surdo — crunch — e a criatura cambaleou para o lado, suas patas raspando o chão em busca de equilíbrio. Um líquido verde-escuro escorreu da fissura em seu exoesqueleto.
Ela não esperou que a barata se recuperasse. Avançou e desferiu um segundo golpe, desta vez no dorso segmentado. O cassetete afundou na carne do inseto como se fosse madeira podre. A barata emitiu um som — um chiado agudo, eletrônico, que ecoou pelo corredor — e então tombou de lado, suas patas se contraindo em espasmos.
Katherine ficou ofegante, o cassetete ainda erguido, os olhos fixos no corpo da criatura. O líquido verde se espalhava pelo chão, formando uma poça viscosa.
— Uau — disse ela, em voz alta, porque precisava ouvir sua própria voz para acreditar que ainda estava viva. — Uau.
O som de mais patas — muitas patas — veio do fundo do corredor.
Katherine ergueu o olhar e viu sombras se movendo na escuridão. Duas. Três. Quatro. Mais baratas, maiores que a primeira, atraídas pelo chiado ou pelo cheiro do sangue verde. Elas avançavam em formação solta, suas antenas se agitando freneticamente.
— Claro — murmurou Katherine, apertando o cassetete. — Claro que não era só uma.
A primeira barata chegou antes que ela pudesse recuar. Katherine desferiu um golpe horizontal que acertou a criatura em cheio, jogando-a contra a parede. A segunda veio por baixo, tentando alcançar suas pernas, mas ela recuou a tempo e pisou no inseto com a bota — o exoesqueleto estalou sob seu peso. A terceira e a quarta atacaram juntas, e Katherine teve que recuar vários passos, batendo com o cassetete de um lado para o outro em movimentos largos e desesperados.
O corredor se transformou em um campo de batalha. Os chiados agudos das baratas se misturavam com os grunhidos de Katherine e o som molhado do cassetete encontrando carne. O líquido verde respingava nas paredes, no chão, em seu uniforme azul. Sua respiração era ofegante, seus braços ardiam, mas ela não parava. Não podia parar.
Quando a última barata caiu — a quarta, ou quinta, ela já havia perdido a conta — Katherine se apoiou na parede, o cassetete pendendo de sua mão trêmula. Seu coração batia tão rápido que ela podia senti-lo na garganta. O uniforme estava manchado de verde, e seus cabelos loiros haviam escapado completamente do coque, grudando em seu rosto suado.
— Isso é o mundo agora — disse ela, olhando para os corpos das criaturas. — Isso é o que sobrou.
Não havia tempo para descanso. O corredor ainda se estendia à frente, e no final dele, Katherine podia ver uma porta dupla de aço — diferente das outras, mais larga, mais imponente. Uma placa enferrujada, coberta de teias de aranha (normais, dessa vez), trazia as palavras: "Supervisor — Acesso Restrito. Violadores serão processados."
Katherine cuspiu no chão, ao lado do cadáver de uma barata.
— Processa isso — murmurou ela, e empurrou a porta.
A sala do Supervisor era maior do que Katherine imaginava — talvez o dobro da sala de controle, com teto mais alto e uma disposição que sugeria status e poder. Uma escrivaninha de mogno escuro — mogno de verdade, não o plástico laminado usado no resto do Refúgio — ocupava o centro da sala, sobre ela um terminal de computador de última geração, com três telas dispostas em semicírculo. As paredes eram revestidas de painéis de madeira, agora manchados e descascados, e um grande mapa-múndi empoeirado pendia atrás da cadeira do supervisor. Havia também uma estante de livros — livros de verdade, com páginas de papel — e um globo terrestre, inclinado, mostrando um mundo que já não existia.
Mas foi o que Katherine viu no canto da sala que a fez parar.
Um corpo. Ou o que restava dele.
Os ossos estavam espalhados no chão, sobre um tapete persa agora irreconhecível sob manchas escuras e mofo. A posição dos ossos sugeria uma queda — como se a pessoa tivesse caído da cadeira e nunca mais se levantado. O crânio estava virado para o lado, a mandíbula separada do resto, as órbitas vazias encarando o teto com uma eternidade de reprovação.
Sobre os ossos, em farrapos que ainda preservavam a forma, um jaleco branco. Ou o que fora branco. Agora era cinzento, esverdeado em algumas partes, com manchas que poderiam ser sangue ou mofo ou ambas as coisas. No bolso esquerdo, Katherine pôde ver o bordado desbotado da Vault-Tec.
— O Supervisor — sussurrou Katherine, aproximando-se. Ela se ajoelhou ao lado dos ossos, sem saber por quê. Não havia nada de humano ali — apenas uma recordação de carne, agora devolvida à terra. — Ele morreu aqui. Sozinho. No escritório que trancou. Enquanto os outros...
Ela não completou a frase. Não precisava.
A mão esquelética — o que restava dela — ainda segurava algo. Katherine se inclinou e, com delicadeza, abriu os dedos ósseos. Uma cápsula de metal caiu em sua palma. Era um pendrive, desses antigos, com o logotipo da Vault-Tec gravado em relevo. Ela guardou-o no bolso do uniforme, sem examinar, e se levantou.
O terminal do Supervisor ainda estava ligado. Como era possível, após duzentos anos? Talvez tivesse uma fonte de energia dedicada, separada do resto do Refúgio. Talvez o destino quisesse que Katherine lesse aquelas palavras.
Ela sentou-se na cadeira do Supervisor — uma cadeira giratória de couro preto, agora ressecada e rachada — e tocou o teclado. A tela central acendeu com um bipe grave, e uma mensagem de boas-vindas apareceu:
"Bem-vindo, Supervisor. Data do último acesso: desconhecida."
Os arquivos estavam organizados em pastas. Katherine clicou na primeira:
"Projeto Criogenizador".
Registro do Supervisor — Arquivo C-2077-01
O protótipo da arma criogênica, codinome "Criogenizador", foi instalado no setor de manutenção na última terça-feira. Diferente das unidades de criogenia padrão, que exigem fonte de energia externa contínua, o Criogenizador opera com células de energia portáteis. A Vault-Tec está interessada em aplicações militares, mas os testes ainda estão em fase inicial. A arma congela o alvo instantaneamente, mas o consumo de energia é alto. Cinco disparos por célula, em média. O Departamento de Pesquisas pediu que eu mantenha o equipamento em local seguro, longe dos residentes congelados. Obviamente. O último que queremos é um civil acordando e encontrando uma arma criogênica.
Katherine franziu o cenho. Arma criogênica. Ela nunca ouvira falar de tal coisa. Mas não era isso que importava agora. Ela passou para o próximo arquivo.
Registro do Supervisor — Arquivo C-2077-02
Os supervisores da Vault-Tec chegaram hoje para a revisão técnica de rotina. Três deles — dois homens e uma mulher — todos com aqueles sorrisos forçados e olhos calculistas. Examinaram as câmaras, os sistemas de suporte à vida, os protocolos de emergência. Fizeram perguntas que não esperavam respostas. No final, disseram que estava "tudo em ordem" e que o Refúgio estava pronto para ser aberto. Aberto. Como se fosse uma loja de departamentos. Não sei se rio ou se choro.
Eles mencionaram algo sobre "sujeitos prioritários". Uma lista de nomes que chegou pelo sistema interno. Whitmore, Katherine. Jackson, Nathaniel. Jackson, Shaun. Pelo visto, são importantes. Alguém pagou bem para ter uma vaga aqui. Não que eu me importe. Nome na lista, câmara atribuída, protocolo executado. Não é meu trabalho questionar.
Katherine sentiu um calafrio. Whitmore. Seu nome de solteira. A Vault-Tec sabia dela muito antes de Hammonds aparecer em Sanctuary Hills. Alguém — seus pais? A Poseidon Energy? — pagou por aquela vaga. Pagou para que ela e sua família se tornassem cobaias.
Ela passou para o terceiro arquivo com os dedos trêmulos.
Registro do Supervisor — Arquivo C-2077-03
Dia do ataque. Finalmente aconteceu. A espera acabou.
A admissão dos residentes aconteceu tranquilamente, dentro do esperado. Não houve pânico, não houve violência. As sirenes e os soldados fizeram seu trabalho. Os primeiros chegaram às 14:37, os últimos às 15:52. O sujeito Jackson estava com o bebê. A mulher, Katherine, parecia em choque, mas cooperou. Preencheram os formulários, vestiram os uniformes, entraram nas câmaras. Tudo como planejado.
Eu me preocupei com a possibilidade de maiores suspeitas, mas tudo aconteceu rápido demais para essa gente. Eles devem ter estado muito assustados para questionar as unidades de criogenia. Ninguém perguntou "por que cápsulas individuais?" ou "quanto tempo vamos ficar aqui?". Nada. Apenas obediência. É impressionante como o medo torna as pessoas dóceis.
Katherine parou de ler.
Suas mãos estavam apoiadas no teclado, os dedos imóveis, os olhos fixos na tela. As palavras dançavam diante dela — "rápido demais", "muito assustados", "obediência" — e cada uma era um golpe.
— Canalhas — sussurrou ela, a voz quebrada. — Canalhas e inescrupulosos.
A indignação que sentira antes diante dos terminais da equipe de segurança era nada perto do que ardia agora em seu peito. Aquilo não era um experimento científico. Era crueldade. Era desprezo. A Vault-Tec não via os residentes como seres humanos. Via-os como ratos de laboratório, como cobaias, como engrenagens descartáveis em uma máquina cujo propósito ela nem sequer conseguia compreender totalmente.
— Eles nos mascararam com um discurso humanista — continuou Katherine, falando para o crânio do Supervisor, para o terminal, para as paredes que testemunhavam a verdade. — "Proteger vocês." "Preparados para o futuro." "Segurança em primeiro lugar." Tudo mentira. Tudo propaganda. E nós... nós acreditamos.
Ela pensou em Nate. Pensou em como ele relutara em assinar os papéis, em como ela mesma duvidara do representante. Mas no final, ambos cederam. Porque era a única opção. Porque o medo da morte nuclear era maior do que qualquer suspeita. A Vault-Tec apostou nisso — e venceu.
— Eu quero — disse Katherine, e sua voz era agora um rosnado baixo, gutural — que a Vault-Tec tenha apodrecido. Que tenha caído nas ruínas do esquecimento. Que não reste uma pedra sobre pedra. Que os ratos e as baratas e as coisas que rastejam tenham feito ninho nos escritórios dos executivos.
Ela apertou os punhos, as unhas marcando as palmas.
— É o que eles merecem.
Respirou fundo, forçou-se a continuar. Havia mais arquivos. O tempo era curto. Shaun estava em algum lugar lá fora, e cada segundo perdido era um segundo a mais longe dele.
O quarto arquivo.
Registro do Supervisor — Arquivo C-2077-04
Suspeito de um defeitinho nos sistemas de controle remoto. Os monitores das câmaras estão mostrando leituras inconsistentes — temperatura, batimentos cardíacos, atividade cerebral. Alguns canais estão completamente offline. Pedi para a equipe de engenharia verificar, mas eles estão ocupados com os problemas de oxigenação na Ala Leste. Vou priorizar o conserto dos monitores. Sem dados, não há pesquisa. Sem pesquisa, não há justificativa para manter este Refúgio funcionando. E sem justificativa... bem, prefiro não pensar nisso.
O quinto arquivo.
Registro do Supervisor — Arquivo C-2077-05
Ainda nenhum sinal de fim de perigo. O período de abrigo obrigatório — 180 dias — está se aproximando. Faltam três semanas. Se o sinal não chegar até lá, não sei o que farei. Os suprimentos não foram calculados para durar mais do que isso. Eu mesmo fiz as contas. Com racionamento máximo, talvez estiquemos por mais dois meses. Depois... depois acaba. Comida, água, energia. Tudo.
As pessoas estão começando a questionar. Não os residentes — os residentes estão congelados, graças a Deus — mas a minha própria equipe. Eles querem saber o que há do outro lado da porta principal. Querem abrir o Refúgio. "A guerra acabou", dizem. "Não há perigo lá fora." Eu não posso deixar. Não até que o sinal chegue. A Vault-Tec foi clara: sem autorização, sem abertura.
Não sei o que fazer. Não posso abrir o Refúgio. Mas também não posso esperar que os suprimentos durem para sempre. As pessoas estão com medo. Estão com raiva. Estão... mudando. Preciso manter tudo sob controle. A qualquer custo. Até o sinal. Até que a Vault-Tec nos liberte.
Katherine leu o último arquivo com os olhos estreitados.
Registro do Supervisor — Arquivo C-2077-06
Uma facção se formou. Liderada pelos funcionários de segurança — aqueles mesmos que eu treinei, que eu confiei. Eles se voltaram contra mim. Exigem a permissão de evacuação do Refúgio. Dizem que vão "abrir a porta com ou sem minha autorização". A Dra. Hartley está entre eles. Ela que mais gritava. "Você nos matou", ela disse. "Você e a Vault-Tec." Ela não entende. Eu não tenho culpa. Eu só sigo ordens.
Consolidei o restante dos suprimentos. Tranquei tudo na despensa central. Mudei os códigos de acesso. Apenas eu sei as novas senhas. Também coloquei os funcionários mais rebeldes em detenção — aqueles que levantaram a voz contra mim. Não é prisão, é... contenção. Medida de segurança temporária.
Chega de generosidade com as rações. Chega de dividir o pouco que temos com quem não coopera. A partir de agora, cada porção de comida terá que ser merecida. Quem trabalha, come. Quem questiona, passa fome. Prioridade para quem é leal. Para quem entende a importância do protocolo. Para quem sabe que, sem o sinal, não podemos sair.
E se o sinal nunca chegar? Não. Não vou pensar nisso. O sinal vai chegar. A Vault-Tec não nos abandonaria.
As palavras pararam. O cursor piscava no final do texto, aguardando continuação que nunca veio.
Katherine ficou olhando para a tela por um longo tempo.
Ela imaginou o Supervisor — aquele esqueleto no chão, aquele jaleco em farrapos — digitando essas palavras. Imaginou sua calma superficial, seu esforço para "manter tudo sob controle" enquanto o Refúgio desmoronava ao seu redor. Imaginou-o trancando a porta, consolidando os suprimentos, colocando os dissidentes em detenção. E depois... depois nada. O silêncio. A fome. A solidão. A morte.
— Você também foi abandonado — disse Katherine, olhando para o crânio. — No final, a Vault-Tec abandonou você também. Assim como abandonou Hammonds. Assim como abandonou os seguranças. Assim como tentou nos abandonar.
Ela se levantou da cadeira, suas pernas doendo, suas costas rangendo.
— Mas eu não vou ser abandonada. Eu vou sair daqui. Vou encontrar Shaun.
Katherine caminhou até a parede atrás da escrivaninha, onde uma porta de aço menor — quase invisível na penumbra — se camuflava contra os painéis de madeira. A placa dizia: "Túnel de Evacuação — Uso Restrito ao Supervisor".
— E vocês todos — disse ela, falando para o Refúgio, para os mortos, para a Vault-Tec, para o universo indiferente — vocês todos podem apodrecer.
Ela empurrou a porta. Ela cedeu com um gemido metálico.
O túnel escuro se abriu diante dela.