A Dança dos Mortos
14 hours and 26 minutes ago
O corredor se estendia à sua frente como um túmulo iluminado por velas rubras. As luzes de emergência do Refúgio 111 pintavam cada superfície em tons de sangue e sombra, e o zumbido dos geradores — antes um ruído de fundo reconfortante — agora parecia a respiração irregular de um moribundo. As botas da Vault-Tec produziam sons secos contra o piso de borracha, cada passo ecoando nas paredes de concreto como um sino fúnebre.
Katherine caminhava sem saber para onde ia. A fúria e a tristeza se alternavam em seu peito como duas marés conflitantes, mas uma terceira força emergia devagar — uma frieza que não era ausência de sentimento, mas sim a cristalização da dor em determinação. Ela precisava sair dali. Precisava encontrar Shaun. E para isso, precisava entender o que acontecera no Refúgio enquanto ela dormia.
As câmaras criogênicas alinhavam-se em ambos os lados do corredor principal, fileiras de cilindros de metal polido dispostos como soldados em posição de sentido. Ao passar por elas, Katherine notou que a maioria das portas de polímero estava embaçada, coberta por uma espessa camada de gelo por dentro. Mas não era o gelo que a detinha.
Era a escuridão por trás do gelo.
Ela parou diante da primeira câmara à sua esquerda. O painel de controle ainda piscava em vermelho — indicador de falha, talvez, ou de emergência. Sua mão tocou o vidro frio, tentando limpar o embaçamento com a palma. O gelo não cedeu facilmente, mas aos poucos ela conseguiu abrir um pequeno círculo de visibilidade.
O que viu fez seu estômago se contrair.
Havia uma pessoa dentro. Uma mulher — Katherine reconheceu a silhueta, os cabelos escuros espalhados sobre o acolchoamento, o uniforme azul da Vault-Tec que todos haviam vestido. Mas o rosto... o rosto não era o de uma pessoa adormecida. A pele estava cinzenta, retraída contra os ossos, formando uma máscara de caveira mal coberta por tecido ressequido. A boca estava aberta num grito silencioso, os olhos fundos, os lábios rachados. A posição do corpo — encolhido, as mãos agarrando a própria garganta — contava uma história que não precisava de palavras.
Asfixia.
Katherine recuou um passo, a mão ainda pressionada contra o vidro. Seus olhos percorreram a fileira de câmaras — dezenas delas, talvez cem — e de repente o corredor inteiro parecia um necrotério. Ela correu para a câmara seguinte, limpou o gelo, viu um homem na mesma posição, as mãos no pescoço, o rosto contorcido.
Correu para a próxima. Um idoso. Uma criança. Uma adolescente. Todos mortos. Todos asfixiados.
— Meu Deus — sussurrou Katherine, a voz ecoando vazia. — Todos eles. Todos.
Ela recuou até encostar-se na parede oposta, as costas pressionando o concreto frio. Sua respiração estava ofegante, seus olhos azuis marejados não apenas de lágrimas, mas de uma compreensão terrível. Por que eu sobrevivi? Por que Nate sobreviveu? Por que Shaun?
A resposta, ela suspeitava, estava em algum lugar daquele Refúgio. E ela precisava encontrá-la.
A sala de controle ficava no final do corredor principal, uma bifurcação à direita que levava a um compartimento maior. Katherine reconheceu o layout das instalações — os terminais de computador embutidos em mesas de metal, as cadeiras giratórias com assentos de couro sintético, os painéis de monitoramento que antes deviam mostrar dados vitais de todas as cápsulas. Agora, as telas estavam escuras ou piscavam em padrões de erro. O cheiro de poeira e ozônio dominava o ambiente.
Havia três terminais ativos. Katherine sentou-se na cadeira central, seus dedos hesitantes sobre o teclado. A tela acendeu com um bipe suave, exigindo senha. Ela digitou a única coisa que lhe veio à mente: *111*. O sistema aceitou.
O primeiro terminal continha os protocolos de manutenção do Refúgio. Katherine leu rapidamente, os olhos percorrendo linhas de texto técnico até que uma palavra saltou da página: "Asfixia".
Registro de Falhas — Sistema de Suporte à Vida
Data: desconhecida (estimativa: +180 dias após fechamento)
Falha crítica no sistema de renovação de oxigênio da Ala Leste. Válvulas de segurança não responderam. CO2 acumulado acima dos níveis letais em 47 minutos. Todos os ocupantes das cápsulas 101 a 157 foram afetados. Óbitos: 56 confirmados. Medidas corretivas: nenhuma. Equipe de manutenção não conseguiu acessar a área devido a...
O texto se cortava ali, substituído por códigos de erro. Katherine tentou rolar para baixo, mas o terminal travou. Ela suspirou, passou a mão pelo rosto, e passou para o próximo terminal.
Este exigia uma senha diferente. Ela tentou *111* novamente, mas não funcionou. Depois VaultTec, Overseer, Refuge, Boston. Nada. Por fim, num golpe de frustração, digitou Nate. A tela se abriu.
— Pelo amor de Deus — murmurou ela, sem saber se ria ou chorava.
O segundo terminal continha os arquivos de projeto do Refúgio 111. Documentos internos da Vault-Tec, memorandos entre executivos, cronogramas de experimentação. Katherine leu com a mesma voracidade com que um advogado lê um contrato — procurando as entrelinhas, as omissões, as mentiras contadas em linguagem técnica.
E encontrou.
Memorando Interno — Vault-Tec Divisão de Pesquisas Avançadas
Projeto: Refúgio 111
Objetivo Primário: Testar os efeitos de longo prazo da animação suspensa em sujeitos humanos desavisados.
Metodologia: Residentes serão induzidos ao sono criogênico sem conhecimento pleno dos procedimentos. Eles acreditarão estar participando de um programa de sobrevivência padrão. Na realidade, serão observados ao longo de ciclos de hibernação induzida, com monitoramento contínuo de parâmetros fisiológicos e psicológicos.
Duração Esperada: Indeterminada. Sujeitos serão mantidos em criogenia até que os recursos do Refúgio se esgotem ou até que a Vault-Tec determine o encerramento do experimento.
Observação: Sujeitos não devem ser informados sobre a natureza experimental do Refúgio. A manutenção da ilusão é fundamental para a integridade dos dados. Qualquer violação do protocolo deverá ser reportada imediatamente ao Supervisor.
Katherine leu o memorando três vezes. Cada vez, as palavras se fixavam mais fundo em sua mente, como pregos sendo martelados em sua carne. Cobaias. Eles nos trataram como cobaias.
Ela pensou em Nate. Pensou em Shaun. Pensou no representante Albert Hammonds, com seu sorriso ensaiado e seus formulários amarelos, dizendo "A senhora está agora preparada para o futuro". Não era um futuro de sobrevivência. Era um futuro de experimentação. De observação. De serem tratados como ratos de laboratório enquanto o mundo lá fora queimava.
— Desgraçados — sussurrou ela, os dedos tremendo sobre o teclado.
O terceiro terminal estava em uma mesa separada, quase escondido atrás de uma pilha de documentos impressos — relatórios em papel, algo raro naquela era, como se alguém tivesse perdido a fé na eletrônica. A tela estava ativa, piscando uma mensagem: "Registro de Segurança — Acesso Restrito". Katherine tentou a senha Nate novamente. Funcionou.
O que ela leu a fez esquecer a respiração.
Registro de Segurança — Morgan T. Hartley, Chefe de Segurança
Data: +4 anos, 3 meses após fechamento
Estou escrevendo isto mais como um diário do que como um relatório oficial. O sistema de comunicação está instável, e de qualquer forma não há ninguém lá fora para ouvir. A Vault-Tec não responde há meses. Ou talvez estejam ouvindo e simplesmente não se importem.
Faltam apenas algumas semanas para o fim do período obrigatório. Lembram-se? O prazo que nos deram: cinco anos de isolamento, e então seríamos liberados. A superfície estaria novamente habitável, ou pelo menos segura o suficiente para evacuação. Pois bem. Faltam semanas. E ninguém aqui acredita mais que o sinal vai chegar.
O Supervisor vive repetindo o mesmo mantra: "Mantenham a calma. Foquem no trabalho." Mas o trabalho é o quê, exatamente? Manter os sujeitos congelados? Monitorar sinais vitais que já estão todos dentro dos parâmetros há quatro anos? Não há trabalho. Há apenas espera. E a espera está nos deixando loucos.
Ontem, o técnico Chen apareceu no refeitório com uma faca de cozinha. Disse que ia "abrir a porta principal com a chave certa". Tivemos que imobilizá-lo. Ele não resistiu. Apenas riu. Riu e riu, até que o sedativo fez efeito. Não é o primeiro. Não será o último.
A comida está acabando. Não sei se o Supervisor admite isso publicamente, mas os números não mentem. Temos suprimentos para, no máximo, mais alguns meses. Seis, se racionarmos como animais. Oito, se começarmos a pular refeições. Mas a carne não dura para sempre, e as latas de Cram também não.
Katherine sentiu o estômago embrulhar. Comida para poucos meses. A equipe do Refúgio — os próprios funcionários da Vault-Tec — estavam morrendo de fome. A ironia era tão amarga que ela quase podia senti-la na língua.
Ela continuou lendo.
A principal porta de acesso à saída está com defeito. Isso foi dito várias vezes nas reuniões, sempre em tom casual, como se fosse um problema menor. Mas eu vi os relatórios de engenharia. A porta emperrou na segunda-feira da terceira semana. Ninguém conseguiu abri-la desde então. As tentativas de reparo falharam, e algumas peças de reposição... simplesmente sumiram.
Existe uma saída alternativa. O túnel de evacuação do Supervisor. Fica atrás do escritório dele, acessível apenas pela sala de comando. É uma rota de emergência, estreita, não projetada para transporte de suprimentos. Mas é a única saída.
Ninguém viu o Supervisor nas últimas quarenta e oito horas. Ele está trancado no escritório com o resto da equipe científica. Disseram que estão trabalhando em "soluções". Eu sei o que isso significa. Eles estão esperando que nós, o resto, desistamos. Ou morramos. Ou ambas as coisas.
Nenhum sinal será dado. Agora tenho certeza. A Vault-Tec nos abandonou aqui, assim como abandonou os coitados nas cápsulas. Somos todos parte do mesmo experimento — os congelados e os descongelados. A única diferença é que nós estamos conscientes enquanto apodrecemos.
Hoje, um grupo de manutenção foi até o escritório do Supervisor. Tentaram arrombar a porta. Ele não abriu. Gritaram. Ele não respondeu. Depois de uma hora, eles desistiram. Eu os vi voltando pelo corredor — os rostos pálidos, os olhos vazios. Ninguém disse nada. O que há para dizer?
Chegou a hora. De um jeito ou de outro, vamos sair deste Refúgio. Seja pelo túnel, seja abrindo a porta principal com força bruta, seja... seja cavando com as unhas. Eu não vou morrer aqui embaixo como um rato numa gaiola.
Se alguém um dia ler isto — se houver alguém lá fora, se houver um depois — saibam que a Vault-Tec nos matou. Não a bomba. Não a radiação. Eles. Com seus experimentos, suas mentiras, sua falsa promessa de segurança.
Morgan T. Hartley, Chefe de Segurança. Último registro.
O texto terminava ali. Não havia assinatura, apenas um cursor piscando. Katherine ficou olhando para a tela por um longo tempo, as palavras dançando diante de seus olhos como se estivessem escritas em brasa.
Chegou a hora. De um jeito ou de outro, vamos sair deste Refúgio.
Mas eles não saíram. Katherine olhou ao redor da sala de controle — vazia, empoeirada, com copos de café petrificados sobre as mesas e cadeiras tombadas como se os ocupantes tivessem se levantado repentinamente e nunca mais voltado. Onde estavam agora? Mortos, provavelmente. Mortos de fome, ou de loucura, ou de desespero. O corpo de Hartley não estava ali — talvez no túnel, talvez em algum corredor, talvez em lugar nenhum.
Katherine fechou os olhos. O turbilhão começou.
Primeiro veio a indignação — pura, quente, incandescente. Ela se levantou da cadeira com tanta força que ela rangeu no chão, e suas mãos se fecharam em punhos.
— Não foi para nos proteger — disse ela em voz alta, as palavras saindo como cuspe. — Nunca foi. Não o Refúgio. Não a criogenia. Não... nenhum disso.
Ela pensou em Nate. Pensou no corpo congelado, o buraco na têmpora, o sangue rubi cristalizado na barba negra. Nate não morreu pela bomba. Não morreu pela radiação. Morreu porque a Vault-Tec o colocou naquela cápsula, o usou como cobaia, e depois permitiu que estranhos entrassem no Refúgio e o assassinassem como se ele fosse nada.
— A Vault-Tec tem sangue nas mãos — sussurrou Katherine. — O sangue de Nate. O sangue de todos aqueles nas câmaras. O sangue... — sua voz falhou. — O sangue de Shaun, se eu não o encontrar a tempo.
Ela começou a andar de um lado para o outro, os passos medidos, o pensamento febril. A indignação deu lugar a uma segunda onda — um desprezo frio pelo que lia sobre o destino da própria equipe.
— E os funcionários — continuou ela, gesticulando para os terminais como se eles pudessem ouvi-la. — Eles também foram tratados como descartáveis. Deixados aqui para morrer de fome, de loucura, enquanto o Supervisor se trancava no escritório com os "cientistas". Cientistas. Fazendo o quê? Planejando o próximo experimento enquanto as pessoas ao redor deles apodreciam?
Lembrou-se de Albert Hammonds. O sorriso ensaiado. O chapéu amarelo. O sobretudo de filme noir. A forma como ele falava de "serviços prestados à América" e "pré-aprovação prioritária". E depois — depois de tudo — a cena no portão do Refúgio, quando os soldados o impediram de entrar.
— Hammonds — disse Katherine, e um riso amargo escapou de seus lábios. — O representante da Vault-Tec. O homem que trouxe os papéis para nós. Ele também foi descartado. Ele também foi tratado como lixo. "Seu nome não está na lista." — ela imitou a voz do soldado, metálica e indiferente. — E ele correu para o bosque, para a morte, para seja lá o que aconteceu com ele.
Ela parou de andar.
— Eles desprezam a vida humana. Todos eles. Os executivos, os cientistas, o Supervisor. Até os próprios funcionários são peças substituíveis. Engrenagens quebradas que se jogam fora quando não servem mais.
A terceira onda foi mais calma, mais clara. Era a conclusão prática, o advogado dentro dela analisando os fatos e extraindo a única linha de ação possível.
— O túnel de evacuação — disse Katherine, os olhos fixos na tela do terminal. — A única saída. Fica atrás do escritório do Supervisor. A sala de comando.
Ela já sabia onde ficava o escritório. Havia passado por ele no caminho para a sala de controle — uma porta dupla de aço no final de outro corredor, com uma placa enferrujada: "Supervisor — Acesso Restrito".
— Tenho que chegar lá. Tenho que passar pelo túnel. Tenho que sair deste maldito lugar.
Katherine apertou a aliança em seu dedo, sentindo o metal frio contra a pele quente.
— Encontrar Shaun depende disso. Não há outra maneira. A porta principal está emperrada. Os outros estão todos mortos. É o túnel ou a morte.
Ela se virou de frente para o corredor escuro, para o caminho que levaria ao escritório do Supervisor, para o túnel que talvez — talvez — a levasse de volta à superfície, ao mundo devastado, ao seu filho.
— Eu vou sair daqui — disse ela, e não era uma promessa. Era uma certeza. — Vou encontrar Shaun. E depois... depois eu vou descobrir quem são os responsáveis. Os verdadeiros responsáveis. Os que planejaram isso. Os que assinaram os memorandos. Os que trancaram as portas. — Ela tocou o coldre vazio em sua coxa — não havia arma ali, mas havia algo pior: propósito. — E eu vou fazer com que paguem. Cada um deles. Cada maldito.
Katherine deu um passo em direção ao corredor.
Depois outro.
E outro.
A luz vermelha dos LEDs de emergência banhou seu rosto, suas feições agora duras, esculpidas pela dor e pela fúria e pela determinação. O uniforme azul da Vault-Tec, o mesmo que lhe deram ao chegar, agora parecia uma armadura. Suas botas ecoavam no piso de borracha. Suas mãos estavam abertas ao lado do corpo, prontas para o que viesse.
A sala de controle ficou para trás, os terminais piscando seus dados fúnebres para ninguém. O corredor se abria à sua frente, e no final dele, a porta dupla de aço.
Katherine caminhou.