Fallout 4 - Katherine

Gen
G
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planned Mini, written 85 pages, 36,170 words, 15 chapters
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O Juramento no Gelo

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O despertar, desta vez, foi diferente. Não houve a lentidão gradual do primeiro despertar, a névoa nos olhos, a confusão dos membros dormentes. Katherine foi arrancada do sono criogênico como se alguém a tivesse puxado para fora da água por uma corda amarrada ao peito — violenta, abrupta, com um grito preso na garganta que só encontrou voz quando seus olhos já estavam abertos. A câmara estava escura. Não completamente — os LEDs de emergência haviam acionado, pintando o interior do cilindro em uma penumbra vermelha e doentia — mas escura o suficiente para que Katherine precisasse de alguns segundos para entender onde estava. O acolchoamento sob suas costas estava úmido, não de água, mas de algo que ela não quis nomear. Suor, talvez. Ou lágrimas congeladas que haviam descongelado. Ela moveu os braços. Eles responderam mais rápido agora, como se o corpo estivesse se acostumando com a violência de ser repetidamente congelado e descongelado. Suas mãos tocaram o vidro da porta, e então — para sua surpresa — a porta deslizou para cima sem que ela tocasse em nenhum botão. Um bipe baixo, quase tímido, ecoou do painel de controle. O sistema de emergência havia sido ativado. Ou talvez o Refúgio 111 estivesse finalmente desmoronando, suas funções falhando uma a uma, liberando os ocupantes das cápsulas como um coração que para de bater e solta o sangue. Katherine saiu da câmara cambaleando. Suas pernas estavam fracas, os joelhos vergando sob o próprio peso, mas ela se agarrou à borda da cápsula e se manteve em pé. O piso de borracha estava frio sob suas botas — as botas da Vault-Tec, ela notou, com um detalhe amarelo no tornozelo e solado antiderrapante. O uniforme azul, o mesmo que vestira séculos atrás — ou talvez dias atrás, ou talvez anos — cobria seu corpo, ajustado, estranhamente confortável. Ela não se lembrava de tê-lo vestido. Mas ali estava. A câmara estava vazia. Não, não vazia — a câmara dela estava atrás dela, aberta, exalando uma fumaça fria que se dissipava no ar da sala. O que ela via agora era o que estava diante dela. A câmara de Nate. Ainda fechada. A porta de polímero ainda lacrada, coberta por uma camada espessa de gelo que brilhava sob a luz vermelha dos LEDs. Através do vidro embaçado, Katherine podia ver a silhueta de um corpo — imóvel, caído de lado contra o acolchoamento, os braços estendidos na posição em que haviam caído. — Nate — sussurrou Katherine, e sua voz era um fio, quase inaudível. — Nate. Ela correu. As pernas ainda bambas, os pés ainda dormentes, mas ela correu. Os dois metros que separavam as cápsulas pareceram dois quilômetros, dois anos-luz, duas eternidades. Quando finalmente alcançou a câmara de Nate, suas mãos — suas mãos trêmulas, seus dedos que ainda não recuperaram toda a sensibilidade — procuraram freneticamente pelo painel de controle. Estava ali, na lateral direita da cápsula, um painel de metal escovado com botões e luzes e — sim — uma alavanca. Uma alavanca de metal vermelho, como as dos aviões antigos, com uma inscrição em letras maiúsculas: ABERTURA MANUAL DE EMERGÊNCIA. Katherine puxou a alavanca com todas as suas forças. A alavanca resistiu por um segundo, dois, três — e então cedeu com um clique seco. Imediatamente, um som de descompressão encheu a sala: psshhhh. O gelo na porta de polímero rachou em um padrão de teia de aranha, e a porta deslizou para cima com um rangido metálico que ecoou pelas paredes vazias. O ar frio que escapou da câmara atingiu o rosto de Katherine como um sopro do Ártico. Ela recuou um passo, os olhos ardendo, e então — então ela viu. Nate estava congelado. Não metaforicamente. Literalmente. Seu corpo jazia de lado no acolchoamento, os braços ainda estendidos para a frente, onde antes estivera Shaun. O uniforme azul da Vault-Tec — a jaqueta que ele vestira naquela noite, o zíper que ela mesma fechara — estava coberto por uma camada fina de gelo, os vincos do tecido congelados em formas rígidas. Os cabelos não existiam em sua cabeça raspada, mas a barba negra — aquela barba que ela amava tocar, que arranhava sua bochecha quando ele a beijava — estava franjada de cristais de gelo, cada fio transformado em uma pequena lança brilhante. Seu rosto. Katherine nunca esqueceria aquele rosto. Os olhos castanhos, que ela vira brilharem de alegria no casamento, de medo no parto, de raiva na discussão sobre a Vault-Tec — estavam fechados. Não cerrados em agonia, não arregalados em terror. Apenas fechados, como se ele estivesse dormindo. Mas havia algo errado. Algo no ângulo da cabeça, algo na posição do corpo, algo na cor da pele que era mais azul do que marrom, mais cinza do que azul. E havia o buraco. Pequeno. Redondo. Na têmpora direita, logo acima da linha da barba. Um círculo perfeito, as bordas queimadas, a carne ao redor congelada em uma máscara de sangue escuro que se espalhara antes que o frio o interrompesse. O sangue congelado formava um rastro — um riacho rubi que descera pela bochecha de Nate, pela mandíbula, pelo pescoço, até desaparecer sob a gola do uniforme. — Não — disse Katherine. Apenas isso. Não. A palavra mais curta e a mais inútil do mundo. Seus joelhos cederam. Ela caiu de joelhos diante da câmara aberta, as mãos agarrando a borda de metal, os dedos brancos de força. O som que saiu de sua garganta não era um choro — era um gemido, um som animal, o tipo de ruído que corpos fazem quando as palavras já não são suficientes. Ela soluçou, e o soluço sacudiu seus ombros, sua cabeça, todo o seu ser. — Nate — gemeu ela, e agora sua voz estava quebrada, os pedaços se espalhando pelo chão como os cacos de um vaso. — Nate, não, por favor, não... Ela se inclinou para dentro da câmara. O frio a envolveu, mas ela não sentiu. Seus braços encontraram o corpo de Nate — duro, rígido, pesado como pedra. Ela o abraçou, pressionando o rosto contra o peito dele, contra o uniforme gelado que não tinha batimento cardíaco, não tinha respiração, não tinha nada além do cheiro de ozônio e sangue congelado. — Você não pode ter ido — sussurrou ela contra o tecido azul. — Você não pode. Você prometeu. Você disse que a gente ia ficar bem. Você disse que ia passar por isso. Juntos. Os três. Você prometeu, Nate Jackson, e você nunca quebrava uma promessa, nunca, nunca... As palavras se dissolveram em lágrimas. Katherine chorou como não chorava desde criança, desde a morte de seu avô, quando aprendera que o mundo podia tirar as pessoas sem aviso. Mas aquilo era diferente. Aquilo era Nate. O homem que a puxara para o colo no bar The Rusty Cog. O homem que mancava mas nunca reclamava. O homem que segurou Shaun pela primeira vez e chorou — chorou de verdade, soluçando como um bebê — porque não sabia que era possível amar tanto. E agora ele estava ali, em seus braços, frio e imóvel, e não havia nada que ela pudesse fazer. O tempo passou. Katherine não sabia quanto. Minutos, talvez. Horas, talvez. A luz vermelha dos LEDs continuava a piscar, o sistema de ventilação continuava a zumbir, e o corpo de Nate continuava congelado em seus braços. Aos poucos, muito aos poucos, o choro diminuiu. Não porque a dor tivesse passado — a dor nunca passaria, Katherine sabia disso agora — mas porque o corpo humano tem limites, e ela os havia alcançado. Os soluços se tornaram fungadas, as fungadas se tornaram respirações profundas e trêmulas. Ela ergueu o rosto do peito de Nate e olhou para o rosto dele — o rosto que ela beijara mil vezes, que ela vira sorrir, franzir, enrugar em preocupação. — Eu vou encontrá-lo — disse ela, e a voz era baixa, mas firme. Uma promessa. Um juramento. — Eu não sei como. Não sei onde eles o levaram. Não sei quanto tempo vai demorar. Mas eu vou encontrar o Shaun, Nate. Eu juro por tudo o que é sagrado, eu vou encontrar o nosso filho. Ela tocou o rosto dele com a ponta dos dedos, sentindo o gelo nas bochechas, o gelo na testa, o gelo nas pálpebras fechadas. — Eu vou criá-lo. Vou protegê-lo. Vou contar a ele sobre o pai que ele teve. Um herói. Um soldado. Um homem bom. — Ela engoliu em seco, as lágrimas ameaçando voltar, mas ela as conteve. — Ele vai saber quem você foi, Nate. Eu vou garantir. Foi então que seus olhos caíram sobre a mão dele. A mão direita, que estivera estendida para a frente, agarrando o vazio onde Shaun estivera. Os dedos estavam parcialmente abertos, rígidos, e no quarto dedo — o anelar — brilhava o metal da aliança. Katherine hesitou por apenas um segundo. Depois, com a delicadeza de quem manuseia algo precioso, ela deslizou a mão sob a dele, tocou o anel, e começou a puxá-lo. O metal estava frio, mas cedeu. A aliança deslizou pelo dedo de Nate — a pele gelada oferecendo menos resistência do que a pele viva teria — e caiu na palma de Katherine. Ela a segurou entre o polegar e o indicador, erguendo-a na altura dos olhos. Era uma aliança simples, de ouro branco, sem pedras, sem gravações. A que Nate escolhera na joalheria de Ann Arbor, quando pedira que ela escolhesse a sua primeiro. "Você é mais exigente do que eu, Kate. Escolhe a sua, e eu escolho a mesma, só que pro meu dedo." Ela havia rido naquela época. Não ria agora. Com movimentos lentos, quase cerimoniais, Katherine enfiou a aliança no dedo anelar de sua própria mão esquerda. O metal gelado queimou sua pele, e ela sentiu o peso — não o peso físico, mas o peso de tudo o que aquele círculo representava. As promessas. Os votos. A vida que haviam construído juntos e que agora estava reduzida a um punhado de metal e um corpo congelado. Ela fechou os dedos sobre a aliança, apertando-a contra a palma. — Eu te amo, Nate Jackson — sussurrou ela, inclinando-se para beijar a testa gelada dele. Os lábios tocaram a pele dura e fria, e ela sentiu o gosto de sal — suas próprias lágrimas, escorrendo pelo rosto, caindo sobre a barba congelada de Nate. — Eu sempre te amei. Desde o primeiro dia. Desde o bar. Desde o primeiro sorriso bobo que você me deu, todo nervoso e mancando. Ela riu — um riso quebrado, úmido, que doía no peito. — Lembra? Você mancou até a porta do bar comigo. Não queria que eu andasse sozinha no escuro. Mesmo com o joelho doendo. Mesmo depois de tudo o que você passou no Alasca. — Ela passou a mão sobre o rosto dele, os dedos seguindo o contorno da mandíbula, a linha da barba. — Você era tão teimoso. Tão bom. Eu nunca mereci você. O choro voltou, mas agora era mais calmo, mais resignado. Não o desespero de antes, mas a dor de quem está aprendendo a dizer adeus. — Eu não sei o que me espera lá fora — continuou ela, olhando para o rosto imóvel de Nate. — O mundo acabou, não acabou? Eu vi aquela explosão. Eu vi o cogumelo. O mundo lá em cima deve ser um deserto agora. Talvez esteja tudo morto. Talvez só existam cinzas e monstros e coisas que a gente nem imagina. Ela apertou a mão dele, a aliança roçando o metal gelado da outra. — Mas eu vou. Eu vou sair daqui. Eu vou encontrar o Shaun, mesmo que eu tenha que andar até o fim da Terra. Mesmo que eu tenha que cavar cada abrigo, cada refúgio, cada bunker deste país. — Sua voz ganhou força, um brilho de determinação que queimava por trás das lágrimas. — Eu sou mãe dele, Nate. E você era o pai. A gente lutou por ele. A gente viveu por ele. E eu não vou parar até tê-lo de volta. Ela se inclinou mais uma vez e beijou os lábios dele — os lábios gelados, duros, sem o calor que ela conhecia. Mas era o que ela tinha. Era o único beijo que podia dar agora. — Descansa — sussurrou ela, a testa encostada na dele. — Descansa, meu amor. Você lutou o suficiente. Você deu tudo o que tinha. Mais do que devia. — Ela fechou os olhos, e as lágrimas escorreram pelas bochechas, pingando no rosto congelado de Nate. — Agora é comigo. Por um longo momento, ela permaneceu ali — ajoelhada diante da câmara, abraçada ao corpo do marido, as lágrimas gelando em suas bochechas assim que encontravam o ar frio da sala. O mundo ao redor não existia. Só existiam Nate, e ela, e o silêncio. Finalmente, com um esforço que exigiu tudo o que ela tinha, Katherine se afastou. Afastou-se do corpo de Nate. Afastou-se da câmara. Levantou-se, as pernas ainda tremendo, e olhou para ele uma última vez. Seus olhos azuis, inchados de tanto chorar, percorreram o rosto dele — a barba congelada, as pálpebras fechadas, a ferida na têmpora — e gravaram cada detalhe na memória. — Até logo, Nate — disse ela, a voz falhando na última sílaba. — Não é adeus. É até logo. Porque eu vou te ver de novo. Um dia. Não aqui. Mas em algum lugar. — Ela tocou a aliança em seu dedo. — Enquanto eu tiver isto, você está comigo. Sempre. As lágrimas a consumiram novamente, e ela não lutou contra elas. Deixou que caíssem, que molhassem seu rosto, seu uniforme, o chão sob seus pés. Deixou que lavassem um pouco da dor, mesmo sabendo que a dor era infinita. Virou-se. O corredor à sua frente estava escuro, iluminado apenas pelas luzes vermelhas de emergência. Em algum lugar ali, uma saída. Em algum lugar ali, o mundo devastado. Em algum lugar ali, Shaun. Ela deu o primeiro passo.
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