O Assassino no Gelo
17 hours and 4 minutes ago
A escuridão não tinha peso. Não tinha cheiro, não tinha temperatura, não tinha tempo. Era apenas a ausência de tudo — um vazio absoluto onde Katherine flutuava sem corpo, sem membros, sem a consciência de que algum dia tivera um nome.
Então, a luz voltou.
Não foi gradual, como um despertar natural. Foi abrupta, violenta — as pálpebras de Katherine se abriram como se alguém as tivesse puxado para cima com ganchos. A claridade dos LEDs embutidos no teto da câmara a atingiu como uma agulha nos olhos, e ela ofegou, mas nenhum som saiu de seus lábios. Seus lábios. Ela sentia os lábios agora. Sentia a língua seca, colada ao céu da boca. Sentia os dedos — os dedos de suas mãos — dormentes, pesados, como se tivessem sido encharcados em chumbo líquido que depois esfriara.
A câmara. Ela estava dentro da câmara.
O acolchoamento cinza-escuro pressionava suas costas, seus ombros, suas pernas. O vidro — ou polímero, ou o que quer que fosse — da porta estava embaçado, coberto por uma fina camada de gelo que se dissolvia lentamente em pequenas gotas. O ar dentro da câmara era frio, tão frio que cada respiração doía no peito, mas aos poucos começava a aquecer, como se o próprio mecanismo de hibernação estivesse sendo desligado.
O quê? pensou Katherine, o pensamento se formando com a lentidão de um computador antigo. Por que acordei? Quanto tempo se passou?
Ela tentou mover os braços. Eles responderam, mas com um atraso, como se os sinais do cérebro estivessem viajando por cabos danificados. Sua mão direita se ergueu, os dedos roçando o acolchoamento, e então tocou o vidro da porta. Estava frio. Muito frio.
Mas foi quando ela olhou para fora que o coração — que segundos antes parecia paralisado — começou a galopar em seu peito.
A câmara de Nate ficava diretamente em frente à dela, a apenas dois metros de distância. Katherine podia ver a porta de polímero, ainda fechada, ainda lacrada, com uma fina camada de gelo cobrindo sua superfície como uma segunda pele. Dentro, a silhueta de Nate era apenas uma sombra — ele estava deitado no acolchoamento, Shaun aninhado contra seu peito. Katherine não conseguia ver seus rostos, mas podia ver a posição dos braços de Nate, enrolados em torno do bebê como uma concha protetora.
E entre as duas câmaras, duas figuras estavam paradas.
Katherine prendeu a respiração. Seus olhos azuis, ainda embaçados pela névoa do despertar, tentaram focar nas silhuetas. Eram duas pessoas. Um homem e uma mulher. Ambos vestiam uniformes que ela nunca vira — não o azul-marinho e amarelo da Vault-Tec, mas um azul mais escuro, quase negro, com detalhes em cinza-prateado. Os uniformes eram justos, funcionais, cobertos de bolsos e alças e pequenos dispositivos eletrônicos que piscavam em vermelho. Nas costas de ambos, grandes mochilas metálicas — tanques, talvez, ou baterias — conectadas a mangueiras que desapareciam sob as golas dos uniformes.
A mulher era a primeira que Katherine conseguiu distinguir com clareza, pois usava uma máscara de vidro opaco que cobria todo o seu rosto — uma máscara curva, como uma viseira de astronauta, mas completamente fosca, impossível de ver através. O vidro refletia as luzes da câmara, criando pequenos pontos de brilho que dançavam enquanto ela se movia. Em seu peito, um crachá brilhava, mas Katherine não conseguia ler as palavras.
O homem estava ao lado dela, ligeiramente à frente, como se liderasse a operação. Era alto, com ombros largos que sugeriam força atlética sob o uniforme justo. O homem era calvo, com cabelos pretos somente dos lados, e a pele branca de seu crânio brilhava sob os LEDs. Os olhos — Katherine podia vê-los agora — eram de um castanho escuro, quase pretos, encovados sob sobrancelhas grossas. Uma barba negra e densa, mal aparada, cobria seu queixo e mandíbula, mas não conseguia esconder o que estava em seu rosto: uma cicatriz enorme, que começava na testa, logo acima da sobrancelha esquerda, descia em diagonal através do olho — o olho estava intacto, milagrosamente — e continuava pela bochecha até o canto da boca, onde se perdia na barba. A cicatriz era branca, elevada, o tecido queloide brilhando como um rio de leite em meio à pele pálida.
O homem falou. Sua voz era grave, rouca, com um sotaque que Katherine não conseguiu identificar imediatamente — talvez do Meio-Oeste, talvez algo mais distante.
— A cápsula é aquela — disse a mulher atrás da máscara. Sua voz era abafada pelo vidro, mas perfeitamente audível no silêncio da câmara. Ela apontou com um dedo enluvado para a cápsula de Nate.
O homem deu um passo à frente. Suas botas — pretas, pesadas, com solados grossos que pareciam militares — produziram um som seco contra o piso de borracha. Ele inclinou a cabeça, examinando a cápsula como um açougueiro avaliando um corte de carne.
— Abra — ordenou. Apenas uma palavra. Mas o tom era inegociável.
A mulher se aproximou da cápsula de Nate, seus dedos enluvados dançando sobre o painel de controle na lateral da estrutura. Houve um bipe — agudo, eletrônico — e então um som de descompressão, um psshhh de ar pressurizado sendo liberado. O gelo na superfície da porta de polímero rachou em pequenas linhas, e a porta deslizou para cima com um ruído hidráulico suave.
O interior da cápsula ficou visível.
Nate estava imóvel, mas seus olhos — os olhos castanhos que Katherine amava — estavam abertos. O processo de criogenia o havia despertado também, ou talvez a abertura da cápsula o tivesse arrancado do sono. Seus braços ainda envolviam Shaun, o bebê ainda pressionado contra seu peito, o rostinho pálido mas tranquilo, ainda dormindo. O macacão azul-claro de Shaun estava amassado, e seus pezinhos nus se projetavam para fora da manta improvisada que Nate fizera com a jaqueta do uniforme.
— O bebê — disse a mulher, sua voz ecoando abafada atrás da máscara. Ela se inclinou para dentro da cápsula, estendendo as mãos enluvadas em direção a Shaun.
— Não! — Nate se moveu. Não um movimento rápido — seus músculos ainda estavam dormentes, suas articulações rangendo após o longo sono criogênico — mas um movimento determinado. Ele girou o corpo, protegendo Shaun com seus ombros largos, recuando contra o acolchoamento da cápsula. Suas costas pressionaram a parede curva, e seus braços se fecharam em torno do bebê como uma armadura viva. — Não toque nele.
A mulher hesitou, as mãos pairando no ar.
O homem deu outro passo à frente. Desse ângulo, Katherine podia ver sua cicatriz com mais clareza — o tecido retraído puxava o canto do olho esquerdo ligeiramente para baixo, dando-lhe uma expressão permanentemente cínica, cruel. Ele não parecia irritado. Parecia entediado, como se aquela resistência fosse um mero contratempo administrativo.
— Larga o bebê — disse ele. A voz não era alta. Não precisava ser. Havia uma ameaça tão sólida em suas palavras que a temperatura da sala pareceu cair mais alguns graus.
— Não — respondeu Nate, e sua voz era um rosnado, o mesmo tom que Katherine ouvira naquelas raras noites em que ele acordava de pesadelos de Anchorage. — Eu não vou deixar vocês levarem meu filho. Não vou. Não vou.
As últimas palavras foram um grito.
O som ecoou pela câmara, ricocheteando nas paredes de concreto, encontrando os ecos de outras cápsulas, de outros despertos que talvez estivessem testemunhando a mesma cena. Foi o grito de um pai, puro e primal, o grito de um soldado que já enfrentara a morte no Alasca e não temia enfrentá-la novamente. Era o grito de um homem que não tinha nada a perder além daquilo que segurava em seus braços.
O homem da cicatriz suspirou. Era um som cansado, burocrático, como o de um funcionário que precisa preencher um formulário extra por causa de um cliente difícil.
Ele enfiou a mão no coldre preso à coxa — Katherine não havia notado o coldre até aquele momento — e sacou um revólver.
Não era uma arma comum. O metal era escuro, fosco, e o tambor parecia maior do que o normal, com câmaras que brilhavam em um tom âmbar. Na lateral do cano, um logotipo que Katherine não reconheceu — talvez da Armas de Defesa, talvez algo mais sinistro. O homem ergueu a arma com uma única mão, o movimento fluido, ensaiado, o gesto de quem já fizera aquilo muitas vezes.
— Último aviso — disse ele.
Nate não recuou. Seus olhos castanhos se fixaram nos do assassino, e naquele olhar havia algo que transcendia o medo. Havia desprezo. Havia orgulho. Havia a certeza de que ele havia feito a coisa certa em toda a sua vida, desde Detroit até Anchorage até aquele momento.
O revólver disparou.
O som foi ensurdecedor dentro da câmara fechada — um estampido seco que se transformou em um zumbido agudo nos ouvidos de Katherine. Ela viu o clarão da boca do cano, uma flor laranja que durou uma fração de segundo. Viu o corpo de Nate sacudir para trás, a cabeça sendo jogada contra o acolchoamento da cápsula. Viu um spray — algo escuro, algo vermelho, algo que não podia ser o que ela pensava — se espalhar pelo interior da câmara, manchando o acolchoamento, manchando o uniforme azul, manchando o rostinho pálido de Shaun.
Nate caiu para o lado.
Seu corpo deslizou contra a parede curva da cápsula, os braços ainda estendidos, os dedos ainda abertos, como se mesmo na morte ele tentasse alcançar o filho. Seus olhos castanhos estavam abertos, mas não viam mais nada. A barba negra, o rosto que Katherine beijara milhares de vezes, agora estava coberto por algo que escorria lentamente, formando poças no acolchoamento.
Shaun chorou.
Foi um choro diferente de todos os outros. Não era fome, não era sono, não era desconforto. Era o choro de um bebê que sentira a morte pela primeira vez — o som de uma alma minúscula se dando conta, em algum nível que nenhum cientista jamais explicaria, de que o calor que a envolvia havia se apagado para sempre.
A mulher da máscara se moveu com eficiência clínica. Ela se abaixou, deslizou as mãos sob o corpo de Shaun — contornando o sangue, evitando tocar Nate — e ergueu o bebê. Shaun esperneou, seus bracinhos agitando-se no ar, seus pezinhos chutando o vazio. Mas a mulher era forte, e seus braços enluvados o seguraram com firmeza.
— Shhh — disse a mulher, mas não havia carinho em sua voz. Era o mesmo "shhh" que se usaria para calar um alarme. — Shhh.
O homem com a cicatriz guardou o revólver no coldre. O metal fez um clique ao se encaixar. Ele se virou lentamente, e seus olhos escuros percorreram a sala até encontrarem a cápsula de Katherine.
Ela prendeu a respiração. Por um momento, seus olhos se encontraram — os dela, azuis e arregalados de horror; os dele, castanho-escuros e vazios como poços. Ele a observou como se observasse um inseto em uma lâmina de microscópio, e um sorriso — um sorriso minúsculo, quase imperceptível — curvou o canto de sua boca não deformado pela cicatriz.
— Ao menos temos o reserva — disse ele.
Não era para Katherine. Era para a mulher. Uma observação casual, como se comentasse o tempo ou o preço do combustível. "O reserva." Como se Nate fosse um produto defeituoso, e ela, Katherine, a peça sobressalente guardada na prateleira.
A mulher não respondeu. Apenas ajustou Shaun em seus braços, pressionando o bebê contra o peito, e se virou em direção à saída da câmara. O homem a seguiu, suas botas pesadas produzindo o mesmo som seco contra o piso de borracha. Antes de sair, ele olhou para trás uma última vez — não para Katherine, mas para o corpo de Nate, estendido na cápsula aberta, o sangue já começando a escorrer para fora, pingando no chão com um som lento e rítmico.
Depois, eles se foram.
O ruído das botas desapareceu no corredor. O choro de Shaun se distanciou, tornou-se um eco, depois um sussurro, depois silêncio.
Katherine ficou sozinha.
Seus olhos estavam fixos na cápsula de Nate, na porta aberta, no corpo imóvel. Ela não conseguia chorar. Não conseguia gritar. Seus lábios estavam abertos, mas nenhum som saía. Suas mãos pressionavam o vidro da própria cápsula, as palmas achatadas contra o polímero frio, como se ela pudesse, pela força do desespero, romper a barreira e alcançá-lo.
Mas não podia.
A cápsula de Nate permaneceu aberta. O sangue continuou a pingar. O corpo de Nate continuou imóvel. E Shaun — seu filho, seu bebê, a última coisa que restava dela e de Nate — estava sumindo no corredor, carregado por estranhos com máscaras opacas e revólveres fumegantes.
Um bipe ecoou.
O sistema de criogenia, que fora suspenso durante a invasão, estava sendo reativado. Katherine sentiu o frio começar a subir novamente, não de fora, mas de dentro, aquele mesmo frio que a envolvêra antes. Suas pálpebras ficaram pesadas. Suas mãos escorregaram do vidro, caindo ao lado do corpo.
Ela tentou lutar. Tentou manter os olhos abertos, tentou fixar o olhar na cápsula de Nate, no corpo do homem que amava, no lugar onde seu filho estivera. Mas o sono criogênico era mais forte que a vontade humana.
O vidro da porta de sua cápsula começou a embaçar novamente, o gelo se reformando em pequenos cristais que cresciam como flores de inverno. A última imagem que Katherine viu antes que suas pálpebras se fechassem foi a porta da cápsula de Nate — ainda aberta, ainda vazia, ainda pingando.
E então, a escuridão voltou.