Fallout 4 - Katherine

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planned Mini, written 85 pages, 36,170 words, 15 chapters
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Quando o Céu Ainda Estava Azul

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O som veio do quarto como uma pequena sirene — agudo, insistente, inconfundível. O choro de Shaun rompeu a quietude da tarde com a mesma urgência de um alarme de incêndio, embora muito mais musical aos ouvidos dos pais. — Minha senhora — chamou Codsworth, flutuando para fora da cozinha com seu olho ocular piscando em âmbar, o código de cores que indicava atenção prioritária. — O pequeno Shaun está manifestando desconforto. Acredito que seria prudente que a senhora e o patrão verificassem seu estado. Katherine já estava de pé antes que o robô terminasse a frase. O café recém-passado ficou esquecido na pia, o vapor ainda subindo em espirais finas. — Vou ali — disse ela, mais para Nate do que para Codsworth, enquanto passava pela mesa com passos rápidos que faziam as calças sociais sussurrarem umas contra as outras. — Vou contigo — respondeu Nate, largando o jornal de vez e se levantando. A claudicação estava mais acentuada agora — a mudança de temperatura da tarde para o final do dia sempre afetava a placa de titânio em sua perna — mas ele não hesitou. Em poucos segundos, alcançou Katherine no corredor, os ombros roçando os batentes das portas enquanto caminhavam lado a lado. O corredor era curto, revestido de um papel de parede bege com delicadas estampas de rosas — uma escolha de Katherine que Nate achara "excessivamente floral" mas que acabara por aceitar, como aceitava a maioria das escolhas estéticas da esposa. As tábuas do assoalho rangiam em pontos específicos: a terceira tábua a partir do quarto de Shaun emitia um gemido prolongado, e Katherine a pisou exatamente agora, produzindo o som familiar que já fazia parte da trilha sonora da casa. O quarto do bebê era o menor dos dois dormitórios, mas também o mais acolhedor. As paredes haviam sido pintadas de um tom suave de creme, com uma faixa decorativa de adesivos de nuvens e estrelas contornando o teto. O berço de madeira clara, herança relutante dos Whitmore, estava posicionado sob a janela voltada para os fundos — a mesma janela pela qual, em dias claros, se podia ver o bosque de carvalhos que marcava o limite da propriedade. Agora, os raios da tarde entravam em ângulo oblíquo, iluminando uma colcha de retalhos que a avó de Katherine fizera décadas atrás. E Shaun. Shaun estava com o rosto vermelho, os pequenos punhos cerrados, a boca aberta num quadrado perfeito de onde saía um choro que alternava entre o indignado e o desesperado. Seus olhos azuis — ainda aquela cor provisória dos recém-nascidos, que tanto Katherine quanto Nate sabiam poder escurecer para castanho ou clarear para verde nos meses seguintes — estavam marejados de lágrimas, os cílios minúsculos grudados em gotas cristalinas. O macacão azul-claro estava levemente torcido, como se Shaun tivesse se remexido durante o sono e acordado desorientado, sozinho no mundo silencioso do berço. — Ele só quer atenção — disse Nate, com o tom de quem já começava a decifrar os códigos do filho. Apoiou-se na borda do berço com as duas mãos e inclinou-se para olhar o bebê de perto. — Não tem fralda molhada, não parece doente... é o drama puro, igual à mãe. — Igual à mãe? — Katherine arqueou uma sobrancelha loira, mas não pôde conter o sorriso. — Nate Jackson, você está a um passo de dormir no sofá. — Brincadeira, brincadeira — ele ergueu as mãos em sinal de rendição, recuando meio passo. Mas o sorriso por baixo da barba negra era visível. Shaun chorou mais alto, como se protestasse contra aquele interlúdio cômico entre os pais. Seus bracinhos se agitavam no ar, dedos minúsculos se abrindo e fechando em busca de algo — um seio, um colo, um calor humano. — O que a gente faz? — perguntou Katherine, hesitando. Ela ainda não havia desenvolvido a confiança plena que Nate parecia ter nos primeiros meses de paternidade. Cada choro era um mistério, cada soluço uma possível emergência. Nate olhou em volta, os olhos castanhos percorrendo o quarto até pousarem sobre o móbile pendurado acima do berço. Era um objeto simples — uma haste de plástico branco da qual pendiam quatro pequenas naves espaciais de feltro colorido (uma vermelha, uma azul, uma amarela, uma verde), todas com olhos pintados e asas de papel cartão. Katherine o comprara em uma loja de artigos infantis em Concord, atraída pela estética vintage e pelo preço baixo. — Gira o móbile — sugeriu Nate, apontando com o queixo. — Funcionou semana passada. Katherine deslizou a mão entre as grades do berço até alcançar o mecanismo de corda na base do móbile. Era um sistema simples, desses que não precisavam de pilhas — apenas um movimento suave dos dedos para acionar a mola. Ela girou a haste central uma, duas, três vezes, até sentir a resistência característica. Com um pequeno ruído metálico, o móbile começou a girar. As naves de feltro dançaram lentamente sobre a cabeça de Shaun, o movimento circular criando sombras e reflexos que dançavam nas paredes creme. A luz da tarde, filtrada pela janela, pegava as superfícies brilhantes dos olhos pintados, fazendo-os piscar em pequenos pontos de luz. Shaun parou de chorar. Foi abrupto como se alguém tivesse apertado um botão. O choro cessou no meio de uma inspiração, substituído por um soluço residual e depois por um silêncio cheio de pequenos ruídos de sucção, enquanto o bebê lambia as lágrimas dos lábios. Seus olhos azuis se fixaram nas naves giratórias, seguindo-as com uma concentração que parecia quase sobrenatural para um recém-nascido. — Funcionou — sussurrou Katherine, como se temesse que qualquer palavra mais alta pudesse quebrar o encanto. — Sempre funciona — respondeu Nate, também em voz baixa. Ele se aproximou de Katherine por trás, envolvendo-a pela cintura com um braço. O queixo dele descansou no ombro dela, a barba roçando o tecido verde da camisa social. — Ele é seu filho. Fica hipnotizado por coisa brilhando. Igualzinho a você quando vê uma vitrine de joias. — Call me out, why don't you — murmurou Katherine, rindo baixinho. Assim permaneceram por alguns momentos, os três — pais e filho — imersos na quietude da tarde. O móbile continuava a girar, mais devagar agora, enquanto a mola perdia força. As sombras das naves deslizavam pelo rosto de Shaun, que emitia pequenos sons de contentamento, os punhos agora relaxados ao lado da cabeça. Foi Nate quem quebrou o silêncio, mas não sobre o móbile. — Olha — disse ele, apertando suavemente a cintura de Katherine. — Eu estava pensando... o fim de semana tá chegando. O tempo deve continuar bom, pelo menos até domingo, segundo a previsão. — Hum? — Katherine virou ligeiramente o rosto, encostando a têmpora na barba dele. — A gente podia pegar o Shaun, preparar uma cesta, e ir para o parque. O de Lexington, aquele perto do lago. — A voz de Nate ganhou um tom sonhador, quase adolescente. — Levar um cobertor, algumas frutas, sentar na grama. Deixar ele olhar as árvores, as nuvens. Dizem que essas coisas estimulam o desenvolvimento, não é? Katherine arqueou a sobrancelha novamente, mas agora com um sorriso mais amplo. — Programa de parque? — perguntou ela, virando-se dentro do abraço dele para encará-lo de frente. Seus olhos azuis brilhavam com um misto de curiosidade e divertimento. — O que exatamente você está propondo, Nate Jackson? Piquenique? Frisbee? Talvez um passeio de pedalinho no lago? — Tudo isso — respondeu ele, sem titubear. — Ou nada disso. Só... ficar juntos. Os três. Longe das notícias, da campainha, do representante da Vault-Tec. — Ele fez uma pausa, a mão subindo para tocar o rosto dela, o polegar roçando a maçã do rosto. — Lembra quando a gente ia para aquele parque em Ann Arbor? Você levava aqueles sanduíches horríveis de pasta de amendoim com geleia... — Os sanduíches eram ótimos! — interrompeu Katherine, fingindo indignação. — Eram horríveis — insistiu Nate, rindo. — Mas os momentos eram bons. Ela ia retrucar, abrir a boca para uma provocação afiada, quando um som diferente cortou o ar. Não era o choro de Shaun. Não era o vento nas árvores. Era a voz de Codsworth, vinda da sala de estar, mas com um timbre que nenhum dos dois jamais ouvira antes. — Patrão. Minha senhora. — A voz do robô estava grave, modulada em um tom mais baixo do que o habitual, e havia uma urgência fria nela que parecia deslocada vindo de um eletrodoméstico. — Peço desculpas pela interrupção, mas considero de extrema importância que ambos venham à sala imediatamente. É sobre o noticiário. O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros. Não era um silêncio pacífico, mas um silêncio de suspensão — como a fração de segundo entre o clarão e a onda de choque. Katherine e Nate trocaram um olhar. Não precisaram de palavras. — Segura ele — disse Katherine, já se afastando do abraço e se dirigindo para a porta do quarto. — Pego ele — respondeu Nate, inclinando-se sobre o berço. Com o cuidado de quem já aprendera a lidar com objetos frágeis em campos de batalha, mas com uma ternura que nenhum campo de batalha lhe ensinara, ele deslizou as mãos sob o corpo pequeno de Shaun — uma mão sob a nuca, a outra sob as costas — e ergueu o bebê contra o peito. Shaun murmurou algo indistinto, um som que poderia ser um protesto ou um suspiro de contentamento, e enterrou o rosto no ombro do pai. Nate sentiu o calor do filho contra o tecido da camiseta branca, o batimento cardíaco rápido e rítmico, o cheiro de talco e leite. Por um instante, tudo pareceu normal novamente. Katherine já estava no corredor, seus passos rápidos ecoando nas tábuas de madeira. Nate seguiu atrás, mancando ligeiramente, protegendo a cabeça de Shaun com a palma da mão enquanto passava pelo batente da porta. A sala de estar era um espaço modesto, mas acolhedor — sofá cinza de três lugares, poltrona estofada em tom terroxa, uma estante de madeira escura abarrotada de livros de direito, alguns troféus de veteranos de guerra, e uma fotografia emoldurada do casamento de Nate e Katherine, ambos sorrindo sob um arco de flores artificiais em Ann Arbor. Sobre um aparador encostado na parede lateral, o televisor — um modelo de tubo da RobCo, tela de 24 polegadas com gabinete de madeira falsa — estava ligado. Codsworth flutuava a poucos centímetros do aparelho, seu olho ocular fixo na tela. Katherine chegou primeiro, seus olhos imediatamente atraídos para a imagem granulada do canal 3 — o Boston Bugle Broadcast, emissora afiliada da rede nacional. O que ela viu a fez parar no meio da sala, os braços caídos ao lado do corpo, a respiração presa. Nate entrou um segundo depois, Shaun no colo, e também congelou. O âncora da noite — um homem de meia-idade chamado Victor Lang, conhecido por seu cabelo grisalho impecável e seu sotaque neutro de meio-oeste — estava sentado à sua mesa de acrílico, mas não havia nada de impecável em sua aparência agora. Sua gravata vermelha estava frouxa, seu colo desabotoado, e seu rosto — antes polido e profissional — era uma máscara de horror mal contido. Suas mãos tremiam sobre o teleprompter, os dedos arranhando a superfície de vidro como se buscassem uma ancora em um mar revolto. — ...repito, o que estamos recebendo de múltiplas fontes é de uma gravidade sem precedentes na história deste país — disse Lang, sua voz falhando na palavra "história". Ele pigarreou, tentando recuperar a compostura, mas seus olhos estavam arregalados, as pupilas reduzidas a pontos. — Há relatos não confirmados de... de explosões de grande magnitude em solo americano. Repito, solo americano. Katherine levou a mão à boca. Nate apertou Shaun com mais força contra o peito. — As primeiras informações, ainda não verificadas de forma independente por esta emissora, indicam que as cidades de Nova York e... e porções do estado da Pensilvânia... — Lang hesitou, engoliu em seco, e Katherine pôde ver gotas de suor escorrendo pela sua têmpora, através da maquiagem que borrava. — Senhoras e senhores, há indícios de que uma explosão nuclear possa ter ocorrido. Repito, nuclear. O estúdio ao fundo estava vazio. Não havia os produtores correndo, os assistentes gesticulando, os gráficos animados que normalmente preenchiam o cenário. Apenas Lang, sozinho diante da câmera, seu olhar fixo em algum ponto além do alcance da lente. — Informações de fontes militares, ainda não autorizadas para divulgação, sugerem que a cidade de Nova York — Nova York! — foi atingida por um dispositivo de fissão. O mesmo se aplica a... a cidades na Pensilvânia. Não podemos confirmar nomes neste momento. A Casa Branca não se pronunciou. O presidente... — ele hesitou novamente, a mão subindo para afrouxar ainda mais a gravata, como se ela estivesse o estrangulando — ...o presidente ainda não foi localizado. Katherine sentiu o estômago se contrair. Nova York. Seus pais. A mansão no Upper East Side. O apartamento com vista para o Central Park. Ela não conseguia processar. O cérebro dela, treinado em precedentes jurídicos e argumentação lógica, parecia um computador diante de uma divisão por zero. Nate, por sua vez, não processava — ele sabia. Cada fibra de seu corpo de soldado reconhecia o que estava acontecendo. O Alasca. Anchorage. Os relatórios de inteligência que ele tivera acesso mesmo após a dispensa, por meio de contatos na reserva. Ele sempre soubera que este dia poderia chegar. Só nunca acreditara que veria. Victor Lang continuou a falar, mas suas palavras estavam se tornando desconexas, frases soltas que pareciam escapar de sua boca sem passar pelo crânio. — Aconselhamos a população a buscar abrigo. Repito, buscar abrigo. Não há informações sobre áreas seguras. Não há... não há informações sobre zonas de impacto adicionais. As defesas antimísseis... não sabemos se... — ele parou, os olhos desviando-se do teleprompter para algo fora da tela. Seu rosto empalideceu vários tons em questão de segundos. — Meu Deus. Foi tudo o que ele disse. As duas palavras saíram como um sussurro, uma prece, um lamento. E então, Victor Lang baixou o olhar. Seus ombros caíram. Ele não olhou mais para a câmera. Apenas ficou ali, imóvel, o queixo tocando o peito, como se o peso do mundo tivesse finalmente esmagado sua espinha. A tela estremeceu. Um zumbido agudo, depois um ruído branco. A imagem de Lang foi substituída pela estática da TV, com a mensagem "Please, Stand By". Ninguém se moveu. Codsworth foi o primeiro a quebrar o silêncio. — Patrão. Minha senhora. — A voz do robô estava mais grave do que Katherine jamais ouvira. As três mãos mecânicas estavam imóveis, pendentes como as de um homem em posição de sentido. — Os sensores de radiação do meu chassi estão detectando... anomalias. Não posso precisar a distância, mas há flutuações na frequência alfa. Devo informá-los que isso é consistente com... — Eu sei o que é consistente — interrompeu Nate, sua voz rouca, quase um rosnado. Seus olhos castanhos estavam fixos na tela de estática, mas sua mente — Katherine podia ver — já estava em outro lugar. Katherine finalmente encontrou sua voz. Não era a voz que ela usava em audiências simuladas ou discussões acaloradas com Nate. Era uma voz que ela nem sabia que possuía: fria, clara, cortante como uma lâmina. — Vamos para o Refúgio 111. Nate virou a cabeça para olhá-la. Shaun ainda estava em seus braços, o bebê agora acordado e confuso, os olhos azuis arregalados, o lábio inferior tremendo. Mas ele não chorava. Parecia perceber, em algum nível profundo e animal, que o silêncio era mais urgente que o choro. — Kate — Nate começou, mas ela não o deixou continuar. — Não, Nate. Escuta. — Ela deu um passo em sua direção, os sapatênis rangendo no piso de madeira. Sua camisa social verde estava perfeitamente passada, mas suas mãos — aquelas mãos que assinavam documentos legais e acariciavam o rosto do filho — estavam tremendo. — Aquele homem. Hammonds. Ele estava aqui hoje. Ele disse que o país já foi pros ares. Nós achamos que era exagero, que era tática de venda. Não era. Ele sabia. Eles sabiam. — Sabiam? — Nate franziu a testa, a barba negra contraindo-se. — Você está dizendo que a Vault-Tec sabia que uma guerra nuclear ia começar hoje? — Estou dizendo que não vamos esperar para descobrir. — Katherine aproximou-se ainda mais, até ficar a centímetros dele. Ela colocou uma mão no ombro de Nate, a outra no pequeno corpo de Shaun. Os três formavam um triângulo de calor em meio ao zumbido frio da estática. — O refúgio. Abaixo da terra. Protegido. Eles disseram que o Refúgio 111 foi construído para sobreviver a um ataque direto. Disse que tinha suprimentos para anos. — Você duvidou deles há meia hora — observou Nate, mas não havia acusação em sua voz. Apenas um espanto residual. — E agora não duvido mais. — Katherine apertou o ombro dele. — Vamos. Agora. Por favor, Nate. Por mim. Pelo Shaun. Nate olhou para o filho. O pequeno Shaun o observava com aqueles olhos azuis que poderiam ser da mãe ou poderiam ser seus — ainda era cedo para saber. Seu queixo tremia, mas ele não chorava. Brabo, pensou Nate. Teimoso. Sobrevivente. — Vamos — disse Nate, finalmente. — Mas rápido. Sem bagagem. Sem papéis. Só nós. Pegamos o que estiver no caminho, e vamos. Katherine já estava se movendo. Ela correu para o corredor, para o quarto de Shaun, agarrando a bolsa de fraldas que ficava ao lado do criado-mudo, uma manta de lã, a chupeta de reserva. Nate seguiu em direção à entrada, onde pendiam os casacos — o sobretudo dele, de couro marrom, e o casaco de Katherine, azul-marinho. Foi então que Codsworth flutuou até eles. — Patrão. Minha senhora. — O robô hesitou, uma anomalia em sua programação. Seu olho ocular piscou em vermelho, depois azul, depois vermelho novamente. — Devo preparar o veículo? Ou... devo acompanhá-los? Minhas funções podem ser úteis no abrigo. Tenho kits de primeiros socorros. Posso purificar água. Posso... Nate parou. Ele olhou para Codsworth — aquele robô que Katherine apelidara, que preparava café no ponto certo, que conversava sobre a Décima Emenda, que pendurou o enfeite de Natal por semanas. Ele era, de certa forma, membro da família. — Você não pode vir — disse Nate, e a dor em sua voz era real. — O Refúgio... eles não vão deixar entrar um robô. É para humanos. Só humanos. — Patrão... — Codsworth emitiu um ruído baixo, quase um gemido metálico. — Fica com a casa, Codsworth — interrompeu Katherine, surgindo do corredor com a bolsa e a manta. Ela passou por ele sem olhar, os olhos marejados, a voz embargada. — Fica. Toma conta. A gente volta. Mentira. Talvez todos os três soubessem que era mentira. Mas era a mentira que precisavam ouvir. Nate já estava na porta, Shaun seguro contra o peito com um braço, o outro abrindo a maçaneta. O ar fresco da tarde invadiu a sala, o cheiro de outono, de folhas, de um céu que ainda parecia azul. — Vamos — ordenou Katherine, empurrando Nate suavemente pela porta. E então, como um só corpo, os três — os dois pais e o filho — atravessaram a soleira e desapareceram no mundo lá fora. Codsworth ficou sozinho na sala de estar, flutuando diante da televisão que ainda chiara estática. Seu olho ocular piscou lentamente, uma vez, duas vezes. E então, muito suavemente, o robô girou no ar e começou a limpar a cozinha — passando pano nos balcões, organizando as xícaras, alisando a toalha da mesa. Como se ainda houvesse um amanhã.
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