Fé no Inevitável
18 hours and 33 minutes ago
O eco dos passos de Katherine no piso de madeira da sala foi o primeiro som a quebrar o silêncio depois que a van azul desapareceu na curva. Ela fechou a porta atrás de si com um cuidado que beirava a agressividade — não uma batida violenta, mas um fechar firme, decidido, que fez a pequena janela octogonal tremer em seu batente. A maçaneta de latão esfregou contra a fechadura com um clique seco.
— Foi o representante da Vault-Tec? — perguntou Nate, ainda na cozinha. Ele não se levantara da cadeira, mas havia virado o tronco na direção da entrada. Seus olhos castanhos examinaram o rosto de Katherine enquanto ela emergia do corredor, buscando pistas em suas feições — a tensão nos maxilares, o vinco entre as sobrancelhas.
Katherine não respondeu de imediato. Atravessou a sala com passos medidos, os sapatênis produzindo um ruído baixo e rítmico contra o assoalho. Chegando à cozinha, ela puxou a cadeira que ocupara antes, escorando-a contra o chão com um rangido proposital. Sentou-se, mas não pegou o café — já estava frio, uma película fina se formara sobre a superfície escura. Em vez disso, apoiou os cotovelos na mesa e passou as mãos pelo rosto, afastando os cabelos loiros da testa.
— Sim — respondeu finalmente, a voz abafada por entre os dedos. — Albert Hammonds. Representante regional para a Nova Inglaterra. Um homem ridículo com um chapéu ridículo e um sobretudo que parecia saído de um filme noir dos anos 40.
Nate grunhiu, deixando o jornal de lado completamente. A manchete sobre a mobilização chinesa no Ártico ficou exposta, as letras pretas parecendo saltar da página sob a luz da tarde.
— Ele queria que a gente assinasse alguma coisa? — perguntou, recostando-se na cadeira com um movimento que fez as costas de madeira estalarem. — Esses tipos de venda direta geralmente têm um contrato escondido na letra miúda.
— Queria que a gente preenchesse alguma coisa — corrigiu Katherine, afastando as mãos do rosto. Ela olhou para a janela, para o quintal onde as sombras das árvores começavam a se alongar. — Formulários de admissão prioritária para o Refúgio 111. E não, não assinamos nada. Eu só... preenchi com nossos dados. Para ele ir embora.
Nate ergueu uma sobrancelha, a barba negra franzindo-se em um meio-sorriso irônico.
— Você fez o que? Preencheu papéis para um abrigo nuclear só para se livrar de um vendedor? — Ele balançou a cabeça, um riso abafado escapando entre os lábios. — Katherine, isso é ao mesmo tempo genial e completamente maluco.
— Foi a única maneira de fazê-lo sair da minha varanda — retrucou ela, com um tom defensivo que logo se dissolveu num suspiro cansado. — Ele estava tão... educado. Tão sorridente. Me deu arrepios, Nate. Parecia um daqueles cultistas que a gente vê nos documentários, sabe? Com a pasta de couro e a gravata vermelha...
O silêncio caiu entre eles, preenchido apenas pelo som do vento lá fora sacudindo as folhas do bordo no quintal dos fundos e, ao longe, o latido de um cão em alguma casa vizinha. Codsworth, sensível ao clima, ajustou sua flutuação para pairar perto da pia, mantendo-se discretamente à distância — seu olho ocular piscou em verde, sinal de que ele estava em modo de observação silenciosa.
Nate inclinou-se para a frente, apoiando os antebraços na mesa. A luz do sol, agora mais baixa no céu, incidia sobre seu rosto, realçando as pequenas cicatrizes na linha do maxilar e o brilho de sua cabeça raspada. Ele parecia mais velho do que seus 29 anos — a guerra fizera isso, pensou Katherine, não pela primeira vez.
— Você sabe — começou ele, com a voz baixa, como se estivesse compartilhando um segredo — que, apesar da roupa ridícula e do sorriso ensaiado, aquele homem não estava exatamente errado.
Katherine franziu a testa.
— Como assim?
— Sobre a segurança. Sobre estarmos preparados. — Nate gesticulou vagamente em direção à janela, ao céu azul, ao mundo lá fora. — Eu sei que você acha que tudo isso é histeria coletiva, que as pessoas estão exagerando, que os noticiários só querem audiência... mas não custa nada pensar no assunto. Pelo menos um pouco.
As palavras pairavam no ar como fumaça.
— Preparados — repetiu Katherine, o ceticismo tingindo sua voz como uma camada de gelo. Ela virou-se na cadeira para encará-lo de frente, os olhos azuis fixos nos dele. — Você realmente acredita nessa baboseira, Nate? Que estamos prestes a entrar num... num apocalipse nuclear? Que daqui a algumas semanas ou meses vamos todos estar vivendo debaixo da terra como toupeiras?
Ela fez uma pausa, e quando retomou, sua voz traía mais do que ceticismo — havia ali uma ponta de frustração, quase de descrença:
— Sabe qual foi meu primeiro pensamento quando vi aquela van azul estacionada na minha calçada? Que era um trote. Uma pegadinha de mau gosto. Daquelas que as rádios promovem para testar a reação das pessoas. Eu esperava a qualquer momento que um cinegrafista saltasse do banco de trás e gritasse "Você caiu!". — Ela riu, mas não havia humor naquele som. — Mas não. Era um homem de verdade, com um chapéu de verdade, e pastas de verdade. E ele falava sobre "serviços prestados à América" como se minha família tivesse salvado o país da invasão chinesa, em vez de simplesmente... assinar contratos de exploração de petróleo no Havaí.
Nate ouviu em silêncio, seus olhos castanhos não desviando dos dela. Quando ela terminou, ele permaneceu imóvel por alguns segundos, processando. Depois, com um movimento lento, estendeu a mão por cima da mesa e envolveu os dedos dela — os dedos dela, frios do café que já não bebia, entre os seus, quentes e calejados.
— Talvez — disse ele, com uma pausa significativa — você não esteja acompanhando os noticiários como deveria.
Katherine abriu a boca para retrucar, mas ele ergueu a outra mão, pedindo paciência.
— Não estou dizendo isso para te criticar — continuou Nate. — Deus sabe que você tem tido tempo mais do que suficiente para se preocupar com Shaun, com a prova da ordem, com tudo. Mas... as coisas estão piorando, Kate. Muito mais rápido do que a maioria das pessoas quer acreditar.
Ele soltou a mão dela e apontou para o jornal abandonado sobre a mesa. A manchete parecia gritar em silêncio.
— Você viu isso? "China mobiliza frota no Ártico." O que você acha que eles estão fazendo lá, pescando salmão? Não. Eles estão posicionando mísseis a menos de duas horas de voo de Anchorage. Do mesmo lugar onde eu... — Ele parou, engoliu em seco. O fantasma de Anchorage pairava entre eles, invisível mas palpável.
— Do mesmo lugar onde eu vi homens se transformarem em gelo e sangue ao mesmo tempo.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado.
— E não é só isso — prosseguiu Nate, a voz ganhando um tom grave, quase professoral. — A semana passada, o presidente anunciou que as Forças de Ocupação Doméstica vão começar a patrulhar as cidades. As escolas estão construindo abrigos nos porões. Em Boston, já começaram a racionar água duas vezes por semana. Duas vezes por semana, Katherine. Em uma cidade portuária. Isso não é normal. Isso nunca foi normal.
Katherine desviou o olhar, fixando-o no ponto onde as mãos deles haviam se tocado. Ela mordeu o lábio inferior — um hábito nervoso que Nate reconhecia desde os primeiros dias em Ann Arbor.
— E mesmo que você esteja certo — murmurou ela —, mesmo que a guerra nuclear seja inevitável... o que diabos podemos fazer a respeito? Construir um abrigo no quintal? Estocar enlatados e armas?
— Não — respondeu Nate, balançando a cabeça. — Mas podemos... considerar as opções. Como aquela que o representante nos ofereceu.
Katherine ergueu os olhos rapidamente.
— Você está falando sério? O Refúgio 111? Você confiaria sua vida — a vida do seu filho — a uma corporação que lucra com o medo das pessoas?
— Confio mais neles do que em deixar meu filho exposto à radiação enquanto tentamos cavar um buraco no quintal com as mãos — retrucou Nate, sem hesitação. Sua voz não era agressiva, mas havia ali uma certeza que vinha de meses, talvez anos, de reflexão silenciosa sobre o assunto. — Olha, eu não estou dizendo que a Vault-Tec é santa. Sei muito bem que são uma empresa, com lucros e acionistas e todas as coisas que você estudou na faculdade de direito. Mas também sei que eles têm contratos com o governo. Que os abrigos foram construídos com verba federal. Que engenheiros do Exército supervisionaram as obras.
— Isso é o que eles dizem — insistiu Katherine, mas a convicção em sua voz estava diminuindo, substituída por uma incerteza crescente.
— É o que dizem, sim. E é o que está nos relatórios oficiais. — Nate suspirou, coçando a barba com a mão direita. — Olha, não estou pedindo para assinarmos nada agora. Não estou pedindo para nos mudarmos para um abrigo amanhã. Só estou dizendo... não custa nada nos precavermos. Caso isso venha a acontecer de fato.
Ele se levantou da cadeira, mancando levemente até a janela da cozinha que dava para o quintal dos fundos. Lá fora, o balanço de madeira que Nate construíra para Shaun balançava suavemente ao vento, vazio, sua corda rangendo num ritmo melancólico.
— Pensa no Shaun — disse Nate, de costas para ela. Sua voz estava mais baixa agora, rouca de emoção contida. — Ele ainda é um bebê, Kate. Não sabe andar, não sabe falar, não sabe se proteger do mundo. É nosso trabalho mantê-lo em segurança. A todo custo. — Ele se virou, e Katherine pôde ver seus olhos brilhando sob a luz da tarde, a barba escura contrastando com a palidez que surgira em seu rosto. — Se houver a menor chance de uma guerra nuclear — a menor mesmo, uma em um milhão — e se houver uma maneira de mantê-lo vivo, seguro, protegido... eu quero pelo menos considerar essa maneira. Você não quer?
O silêncio durou o que pareceu uma eternidade.
Katherine olhou para a mesa, para o jornal com a manchete apocalíptica, para a xícara de café frio, para a cadeira vazia onde Nate estivera sentado. Depois, seus olhos se desviaram para o corredor, para a porta semiaberta do quarto de Shaun. Dali, ela podia ouvir a respiração suave do filho — aquele som pequeno e frágil que a fizera chorar de alegria na primeira noite em casa.
Seus ombros caíram.
— Você está certo — sussurrou ela, tão baixo que Nate teve que se inclinar para ouvir. — Droga, Nate... você está certo.
Ela passou as mãos pelo rosto novamente, agora com um gesto cansado, quase derrotado.
— Desculpa. — Ela ergueu os olhos azuis para ele, e havia ali uma vulnerabilidade que raramente mostrava, aquela que ficava guardada para os momentos silenciosos entre eles, depois que Shaun dormia e as luzes se apagavam. — Desculpa ter duvidado de você. De novo. Você sempre pensa nessas coisas antes de mim. Na segurança, no que pode dar errado... é como se seu cérebro ainda estivesse em campo, antecipando o pior cenário.
Nate atravessou a cozinha com passos lentos, contornando a mesa até chegar ao lado dela. Abaixou-se, apoiando as mãos nos braços da cadeira de Katherine, ficando com o rosto na altura do dela. A barba roçou suavemente a bochecha dela quando ele se aproximou.
— Ei — disse ele, a voz macia como não era com ninguém mais. — Não precisa se desculpar. Sério.
Katherine tentou protestar, levar a mão aos lábios para conter alguma palavra, mas ele negou com a cabeça.
— Não há nada pelo que você precise se desculpar. — Ele tocou o queixo dela com os nós dos dedos, erguendo-lhe o rosto. — Você é a pessoa mais inteligente que eu conheço, Kate. A mais sensata. A que me impede de fazer merda quando minha primeira reação é pegar um rifle e resolver as coisas na bala. Se às vezes você duvida da iminência do fim do mundo... bem, isso só prova que você é humana. E que ainda tem esperança. O que não é um defeito, por mais que o mundo pareça estar contra essa ideia.
Katherine riu — um riso pequeno, úmido, que dissolveu a tensão em seus ombros.
— Você é tão bobo às vezes, Nate Jackson.
— É por isso que você me ama — respondeu ele, com um sorriso que fez seus olhos castanhos brilharem.
Ela suspirou, profundamente, como se estivesse expelindo toda a frustração e o medo que haviam se acumulado desde que a campainha tocou. Quando falou novamente, sua voz estava mais calma, mais centrada.
— Certo. Certo. — Ela assentiu, mais para si mesma do que para ele. — Você está certo. O importante é nos mantermos em segurança. Manter o Shaun em segurança. Caso o pior venha a acontecer... — Ela fez uma pausa, o rosto contraindo-se levemente, como se o pensamento do "pior" fosse fisicamente doloroso. — Caso aconteça, eu quero que estejamos preparados.
Nate inclinou a testa, aproximando-a da dela, até que suas peles se tocassem — a testa dele, quente e lisa, contra a dela, ligeiramente úmida dos olhos que haviam ameaçado marejar.
— Vamos ficar bem — sussurrou ele, repetindo a frase que se tornara um mantra entre eles nos últimos meses.
— Vamos passar por isso. Juntos. Os três. E o Codsworth também, se ele prometer não colocar canela no meu café.
Do outro lado da cozinha, o robô emitiu um zumbido discreto.
— Minhas desculpas, patrão, mas a canela é um antioxidante natural. Estatisticamente, a senhora Katherine tem 78% mais chances de viver até os oitenta anos se consumir canela diariamente.
Nate soltou uma gargalhada, quebrando o clima solene. Katherine também riu, afastando-o suavemente com um empurrão no peito.
— Vai, senta — disse ela, apontando para a cadeira. — E para de ser dramático. O dia ainda está bonito. O baile de formatura é hoje à noite. E Shaun vai acordar daqui a pouco pedindo para mamar.
— Sim, senhora — respondeu Nate, com uma reverência exagerada que fez sua claudicação parecer parte da coreografia.
Ele se sentou novamente, esticou as pernas sob a mesa, e pegou o jornal. Mas não o abriu. Em vez disso, manteve os olhos em Katherine, que agora se levantava para levar a xícara de café frio até a pia.
Lá fora, o sol continuava sua travessia lenta pelo céu de outubro. As nuvens eram poucas, dispersas como flocos de algodão sobre um azul infinito. O vento balançava as cortinas da cozinha, trazendo o cheiro de terra molhada e folhas secas. Em algum lugar, uma criança ria — uma daquelas risadas agudas e contagiosas que faziam qualquer um sorrir.
Dentro da casa, por enquanto, ainda havia paz.
— Codsworth — chamou Katherine, enquanto abria a torneira.
— Minha senhora?
— Coloca mais água para ferver, por favor. Acho que vou tomar outro café, afinal.
— Imediatamente, minha senhora. Com ou sem canela?
Katherine olhou por cima do ombro para Nate, que fingia ler o jornal mas a observava por trás das páginas.
— Hoje não — disse ela, um sorriso nos lábios. — Hoje vai ser sem canela.
O robô emitiu um som que poderia ser interpretado como resignação, e seus braços mecânicos começaram a se mover com a eficiência de sempre. A tarde seguia seu curso, calma e enganosamente normal, como se o mundo ainda não soubesse que suas horas estavam contadas