Preparados para o Futuro
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23 de Outubro de 2077 – Sanctuary Hills
O sol da tarde de outono entrava pelas amplas janelas da cozinha, espalhando um brilho dourado sobre as superfícies de fórmica impecáveis. Era uma daquelas raras tardes em que o mundo parecia suspenso — o céu de um azul tão puro que doía, as árvores do quintal balançando suavemente ao vento, as folhas amareladas rodopiando como pequenos fogos de artifício antes de pousarem na grama verde-escura. O termômetro do lado de fora marcava 18 graus, uma temperatura perfeita que raramente se via em Boston naquela época do ano.
Dentro de casa, o cheiro de café recém-passado misturava-se ao aroma suave do sabão de lavanderia e ao leve perfume de talco que vinha do quarto do bebê. Codsworth flutuava silenciosamente perto do fogão, seu olho ocular ajustado num tom azul-calmo, monitorando a temperatura da garrafa térmica enquanto polia uma xícara já impecável com uma de suas três mãos mecânicas.
— A senhora prefere o café com uma pitada extra de canela hoje? — perguntou o robô, com sua voz metálica mas não desprovida de afeto. — Notei que a senhora tem apreciado o toque picante nas manhãs mais frias.
Katherine, sentada à mesa de jantar de madeira clara, ergueu os olhos azuis do livro que lia — um tratado sobre leis de propriedade em tempos de emergência nacional, leitura leve para uma tarde preguiçosa, pensou ela com um sorriso interior.
— Apenas o preto, Codsworth, obrigado — respondeu, pegando a xícara que o robô estendeu com precisão cirúrgica. O vapor subia em espirais delicadas diante de seu rosto. — Hoje estou precisando de algo direto.
Ela usava uma camisa social de tom verde-musgo, mangas dobradas até os cotovelos, combinando com calças sociais em um cinza-ardósia elegante. Os sapatos — sapatênis de couro marrom com fivelas discretas — estavam ligeiramente desgastados no calcanhar direito, fruto de suas caminhadas até o ponto de ônibus. Seus cabelos loiros na altura dos ombros estavam soltos, com uma leve ondulação natural que o ar seco de outono costumava acentuar. Sem maquiagem, com apenas um leve brilho de hidratante nos lábios, ela parecia mais jovem do que seus 25 anos — embora os pequenos círculos escuros sob seus olhos contassem a história das noites mal dormidas com Shaun.
Do outro lado da mesa, Nate estava recostado em sua cadeira, as pernas esticadas e cruzadas nos tornozelos, o joelho direito estalando baixinho enquanto ele ajustava a posição. Vestia uma camiseta branca de algodão, simples e bem-passada, cujo tecido se esticava levemente sobre os ombros largos e o peito musculoso — restos de seu condicionamento militar, que nem os meses de inatividade completa conseguiram apagar. A calça social azul-marinho estava impecável, e os sapatos pretos de couro polido refletiam a luz da janela. Sua cabeça raspada brilhava sob a claridade da tarde, e a barba negra e densa estava aparada com capricho — Katherine sempre dizia que ele ficava mais bonito quando tirava os fios rebeldes do queixo.
— O baile de formatura dos veteranos é hoje à noite — comentou Nate, sem tirar os olhos do jornal The Boston Bugle que segurava com as duas mãos. A manchete principal gritava em letras garrafais: "TENSÕES NO ÁRTICO ATINGEM PONTO CRÍTICO — CHINA MOBILIZA FROTA". — Você ainda está disposta a ir? Sei que não é bem a sua praia...
Katherine tomou um gole de café e suspirou, o vapor úmido borrando por um instante sua visão.
— Prometi que iria quando você me pediu, não foi? — respondeu, com um tom de afeição cansada. — E é bom para a sua imagem entre os oficiais da reserva. Quem sabe alguém lembra de você na próxima rodada de contratações civis.
Nate grunhiu em resposta, baixando o jornal o suficiente para olhar por cima da borda. Seus olhos castanhos se encontraram com os azuis de Katherine, e por um segundo houve ali a linguagem silenciosa de quem já compartilhou cobertor em noites frias e medos em silêncio.
— Fair enough — disse ele, erguendo o jornal novamente. — Mas não me culpe se o punch de frutas estiver mais aguado que a ração do exército.
Do quarto ao fundo do corredor, vinha o som suave e rítmico da respiração de Shaun — aquele som peculiar que os bebês fazem quando dormem profundamente, uma mistura de assobios minúsculos e borbulhas de saliva. O berço de madeira clara, um presente de bodas dos Whitmore que Katherine aceitara com relutância ("Eles nem se deram ao trabalho de vir entregar"), estava posicionado sob a janela voltada para o quintal dos fundos. Shaun, envolto em um macacão azul-claro de algodão, tinha os pequenos punhos cerrados contra o peito, como se mesmo dormindo estivesse se preparando para lutar — uma herança do pai, brincava Katherine.
— Ele dormiu a tarde toda — observou Nate, baixando o tom de voz instintivamente. — Isso é bom ou ruim para a noite?
— Péssimo — respondeu Katherine, rindo baixo. — Vamos passar a noite inteira embalando ele enquanto os veteranos dançam The Battle Hymn of the Republic.
— Você é uma mulher sábia — Nate balançou a cabeça, um meio sorriso surgindo por baixo da barba.
Foi então que o silêncio foi cortado.
Ding-dong.
A campainha ecoou pela casa com seu timbre eletrônico barato — daqueles que a Construtech instalava em todas as Houses of Tomorrow como padrão, porque "o som deve ser agradável, mas não convidativo demais". Nate franziu o cenho, baixando o jornal completamente agora. Katherine, por sua vez, virou a cabeça na direção da entrada, os olhos estreitando.
Ambos sabiam que não esperavam visitas.
— Quem pode ser a esta hora? — murmurou Katherine, já se levantando da cadeira com um leve estalo da madeira rangendo.
— Veja pela janela da sala — sugeriu Nate, ainda sentado, mas com o corpo já tenso na cadeira — hábitos militares, sua mão direita havia descido instintivamente para o coldre que não estava mais em sua cintura. — Se for mais um daqueles malditos recrutadores da Força de Ocupação Doméstica, manda ir pastar. Você não está em idade de alistamento e eu já dei minha cota de sangue.
Katherine atravessou o piso de madeira polida da cozinha para a sala de estar, passando pela estante de livros de direito mal organizada e pelo sofá cinza que ainda tinha a marca de onde Nate sentava todas as noites para assistir ao noticiário. A cortina de renda da janela frontal estava parcialmente aberta, e ela a afastou com a ponta dos dedos.
Lá fora, a van era impossível de ignorar.
Azul. Um azul vibrante, quase elétrico, que parecia projetado para ser visto de quilômetros de distância. Estacionada rente ao meio-fio em frente ao número 221 da Spruce Lane, com o motor ainda emitindo um ruído baixo de idle — o que significava que o motorista não pretendia ficar muito tempo. As laterais do veículo ostentavam um logotipo em amarelo gema de ovo: um engrenagem estilizada circundando a silhueta de uma porta de abrigo subterrâneo, com as palavras VAULT-TEC em letras maiúsculas arqueadas acima. Abaixo, em letras menores: "Preparados para o futuro. Desde 2031."
— Ah, não — Katherine soltou um suspiro de desgosto, recuando meio passo da janela. — É a Vault-Tec.
— O quê? — Nate largou o jornal na mesa com um ruído seco e se levantou, mancando discretamente ao se aproximar da esposa. Ele olhou por cima do ombro dela, o cheiro de café ainda em sua respiração. — A Vault-Tec? O que eles querem com a gente?
Katherine revirou os olhos com uma precisão que só a irritação acumulada poderia produzir.
— O mesmo que querem com todo mundo, Nate. Vender medo. — Ela soltou a cortina, que voltou a cair suavemente. — Desde que Shaun nasceu, minha caixa de correio está entupida de panfletos deles. "Garanta o futuro do seu filho." "Você não quer que seu bebê tenha um lugar seguro, não quer?" — ela imitou a voz de locutor de rádio, um tom doce artificial. — Absurdo.
Nate franziu a testa, a barba negra contorcendo-se enquanto ele ruminava.
— Eles te procuraram diretamente?
— Telefonemas. Duas vezes na semana passada. Uma mulher chamada... como era mesmo... Ah, Betty. Betty alguma coisa. Falou que eu estava pré-aprovada para "cota prioritária". — Katherine fez aspas no ar com os dedos. — Por causa dos meus pais. "Serviços prestados à América", disse ela. "Sua família está na lista desde 2065."
O silêncio entre os dois foi preenchido pelo som distante de um cortador de grama em alguma casa duas ruas abaixo — alguém ainda se importava com a aparência do jardim, apesar das notícias sobre a iminência de guerra nuclear. O absurdo da normalidade.
— Atende a porta — disse Nate, finalmente, com um tom de cansaço resignado. — É um vendedor. Tenho certeza. E ele tem procurado você por dias. Se não atender, vai ficar tocando campainha até a bateria acabar ou um dos vizinhos chamar a polícia por perturbação do sossego.
— E por que eu tenho que atender?
— Porque você é melhor com palavras do que eu — ele deu de ombros, um movimento que ainda carregava a rigidez de quem aprendeu a ignorar a dor. — Se eu atender, capaz de eu convidar o homem para entrar e tomar café enquanto discutimos orçamento de mísseis balísticos. Você vai mandá-lo embora em dois minutos.
Katherine suspirou, mas um sorriso involuntário curvou seus lábios. Ela passou a mão pelos cabelos loiros, puxando uma mecha atrás da orelha, e ajeitou a gola da camisa verde. Com passos firmes, caminhou em direção à porta de entrada — uma porta de madeira maciça pintada de branco, com uma pequena janela octogonal no topo que deixava entrar um losango de luz.
A campainha tocou novamente antes que ela alcançasse a maçaneta.
— Já vai — murmurou ela, entre os dentes.
Ao abrir a porta, a claridade da tarde a fez piscar por um segundo. O ar fresco trazia consigo o cheiro das folhas em decomposição e um traço quase imperceptível de escapamento de veículo. A van azul estava ali, confirmando o que ela já sabia. Mas foi o homem parado na soleira da varanda de madeira que capturou toda sua atenção.
Ele era de estatura média, talvez um pouco acima, com um corpo magro que sugeria mais tempo atrás de uma mesa do que em campo. Sua idade era difícil de determinar — poderia ter quarenta ou sessenta anos, dependendo de como a luz incidia sobre seu rosto. O que o tornava inconfundível, no entanto, era a vestimenta: um chapéu de feltro amarelo, de aba larga, do tipo que se via em filmes antigos de detetives. Por baixo, um sobretudo amarelo-queimado, trespassado, com botões de latão polido que refletiam pequenos pontos de luz. A camisa branca por baixo era impecável, e a gravata vermelho-escura estava amarrada num nó perfeito — um Windsor, notou Katherine, que aprendera a identificar esses detalhes em jantares formais com seus pais.
O homem sorriu. Era um sorriso profissional, ensaiado, que mostrava fileiras de dentes brancos demais para serem naturais.
— Boa tarde, minha senhora — disse ele, removendo o chapéu em um gesto cortês, revelando um topo de cabeleira grisalha cuidadosamente penteada para trás com brilhantina. — Permita-me apresentar-me. Meu nome é Albert Hammonds, representante regional da Vault-Tec para a Nova Inglaterra.
Katherine cruzou os braços sobre o peito, apoiando o peso em um dos pés. Ela não sorriu de volta.
— Sr. Hammonds. Já imagino o que trouxe o senhor até aqui.
O representante manteve o sorriso, guardando o chapéu sob o braço com um movimento fluido. Suas mãos eram pálidas, as unhas aparadas com cuidado.
— Suponho que a senhora seja Katherine Jackson, anteriormente Katherine Whitmore, da família Whitmore de Nova York. Seu pai, Harrison Whitmore, serviu como consultor jurídico da Poseidon Energy durante a Crise do Petróleo de 2053. Sua mãe, Margaret, coordenou os esforços de relações públicas da corporação durante os processos de nacionalização no Havaí. — Ele falava como se lesse uma lista de compras, sem nenhum traço de ameaça, apenas... factual. — Excelentes serviços prestados aos Estados Unidos da América. Serviços pelos quais a Vault-Tec mantém uma dívida de gratidão.
— Não sou minha mãe, e não sou meu pai — retrucou Katherine, sua voz cortante como uma navalha. — E não estou interessada no que a Vault-Tec tem a oferecer. Obrigada. Pode ir.
Ela fez menção de fechar a porta, mas Hammonds ergueu uma mão — não para impedir, apenas em um gesto de pausa.
— Compreendo perfeitamente sua relutância, Sra. Jackson. Realmente compreendo. — Sua voz tinha um tom macio, quase paternal. — Ninguém gosta de pensar no pior cenário. Ninguém quer admitir que o país pelo qual seu marido lutou e sangrou no Alasca já está, para todos os efeitos práticos, com os dias contados.
Katherine parou. Seus dedos apertaram a maçaneta de madeira com mais força.
— "Já está com os dias contados"? — repetiu ela, erguendo uma sobrancelha loira com um escepticismo que beirava o sarcasmo puro. — O senhor está me dizendo que os Estados Unidos da América, a maior potência militar do planeta, com seus porta-aviões nucleares e sua força aérea de fusão, vão simplesmente... desaparecer? Numa tarde de outubro? — Ela fez uma pausa, deixando o silêncio esticar. — Por acaso o senhor tem uma bola de cristal escondida debaixo desse sobretudo amarelo?
Para a surpresa de Katherine, Hammonds riu. Não foi uma risada forçada ou nervosa, mas sim um riso genuíno, gutural, que fez sua barriga tremer sob o casaco. Ele balançou a cabeça, ainda sorrindo, como se ela tivesse acabado de contar a piada mais engraçada que ele ouvira em semanas.
— Sra. Jackson, posso dizer sem medo de errar que aprecio imensamente seu bom humor. — Ele enxugou uma lágrima inexistente do canto do olho com a ponta do indicador. — É um sopro de ar fresco num mundo onde a maioria das pessoas só sabe gritar e chorar quando mencionamos a palavra "abrigo". A senhora tem espírito. Sua família tem espírito.
Katherine não respondeu. Apenas o encarou, esperando.
Hammonds pigarreou, recompondo-se rapidamente. Com um movimento prático, enfiou a mão no bolso interno do sobretudo e retirou uma pasta de couro marrom, dessas que executivos usavam para carregar documentos importantes. Abriu-a com um clique metálico e revelou uma pilha de formulários — páginas e mais páginas de papel amarelado, impressas com letras miúdas e selos oficiais em alto-relevo. No topo, um brasão da Vault-Tec em dourado.
— No entanto — continuou ele, agora mais sério —, devo insistir que a senhora, pelo menos, preencha estes papéis. Apenas para manter o registro atualizado. Não exige compromisso, não exige nenhum pagamento imediato. Apenas... uma formalidade. Uma cortesia que a Vault-Tec estende a todas as famílias pré-aprovadas.
Katherine olhou para os papéis, depois para o homem, depois para os papéis novamente. Seus olhos azuis examinaram as letras garrafais no cabeçalho: "Formulário de Admissão Prioritária — Refúgio 111". Abaixo, em letras menores: "Parceria Vault-Tec & Governo dos Estados Unidos — Divisão de Sobrevivência Civil".
— E se eu disser não? — perguntou ela, mesmo enquanto seus dedos já alcançavam os papéis. Não por interesse, mas porque a curiosidade era mais forte que a antipatia.
— Então a senhora estará dizendo não. — Hammonds encolheu os ombros, um gesto que fez o sobretudo estalar. — E eu voltarei para minha van, anotarei que a família Jackson recusou a oferta, e seguirei meu caminho. Talvez a próxima família na lista esteja mais... receptiva. — Seus olhos brilharam com uma centelha que poderia ser ironia ou poderia ser algo mais profundo. — A senhora escolhe.
Katherine suspirou, o ar saindo de seus pulmões num huff que fez uma mecha loira voar para longe do rosto.
— Certo — disse ela, arrancando a caneta que estava presa na pasta — uma caneta esferográfica azul com o logotipo da Vault-Tec estampado no corpo transparente. — Eu vou preencher essa maldita papelada se essa for a única maneira de o senhor ir embora e me deixar em paz. Já tenho um recém-nascido para cuidar, não preciso de um representante de abrigo nuclear na minha varanda.
Hammonds manteve o sorriso, mas seus olhos acompanharam cada movimento de Katherine enquanto ela pressionava a pasta contra a parede ao lado da porta — não havia mesa ali — e começava a escrever. Seu nome completo: Katherine Elizabeth Jackson. Data de nascimento. Estado civil. Número do Seguro Social. Endereço residencial. Informações sobre Nate: Nathaniel Jackson, veterano, Exército dos EUA, Batalha de Anchorage. Informações sobre Shaun: Shaun Nathaniel Jackson, nascido em 15 de agosto de 2077.
Em menos de dois minutos, os formulários estavam preenchidos. A caligrafia de Katherine era firme, angular, com letras que se inclinavam ligeiramente para a direita — a caligrafia de alguém que teve professores particulares de caligrafia quando criança e nunca perdeu o hábito de escrever direito.
— Pronto — disse ela, arrancando a caneta do último papel e estendendo a pasta de volta para Hammonds, com um gesto abrupto. — Tome.
O representante recebeu a pasta com ambas as mãos, como se fosse uma oferenda sagrada. Ele examinou rapidamente as páginas, verificando os campos mais importantes, e um brilho de satisfação genuína passou por seu rosto.
— Excelente, Sra. Jackson. Excelente. — Ele fechou a pasta com cuidado, guardou-a no bolso interno, e recolocou o chapéu na cabeça, ajustando a aba com um gesto quase teatral. — A senhora e sua família deram um grande passo hoje. Um passo importante. — Ele se virou parcialmente, já descendo o primeiro degrau da varanda, mas parou e olhou por cima do ombro. Seu sorriso ainda estava lá, mas agora parecia tingido de algo que Katherine não conseguia identificar — talvez solenidade, talvez reverência, talvez a certeza de quem sabe de algo que os outros ignoram.
— A senhora está agora — concluiu Hammonds, batendo duas vezes no bolso onde guardara a pasta — preparada para o futuro.
Ele desceu o resto da escada com passos leves, caminhou até a van azul, abriu a porta do motorista e entrou. O veículo roncou, deu uma marcha à ré suave para se desgarrar do meio-fio, e então seguiu pela Spruce Lane abaixo, desaparecendo na curva onde as cercas brancas de Sanctuary Hills davam lugar ao bosque de carvalhos que separava o subúrbio do resto de Concord.
Katherine ficou parada na porta, os braços cruzados, observando o ponto onde o azul vibrante sumira. O vento de outubro trouxe mais algumas folhas secas, que rodopiaram na varanda como pequenos fantasmas. O céu continuava azul. O sol, ainda alto, banhava o quintal e a cerca branca e as janelas da casa.
Ela não sabia, não podia saber, que aquele homem de chapéu amarelo acabara de selar seu destino de uma forma que nem em seus piores pesadelos ela poderia imaginar.
Por enquanto, ainda havia a tarde. Ainda havia café. Ainda havia Shaun dormindo em seu berço.
A van azul virou a esquina e desapareceu para sempre.