Fallout 4 - Katherine

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planned Mini, written 85 pages, 36,170 words, 15 chapters
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Década de 2070 - O Mundo em Chamas

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O ano era 2074. Os Estados Unidos da América viviam sob o espectro constante da aniquilação. A guerra com a China, que por anos se arrastara como uma sombra distante, havia se transformado em um furacão de ferro e fogo. Os holofotes de busca varriam os céus noturnos das grandes cidades, não mais em busca de aeronaves inimigas, mas como um lembrete ritualístico de que o apocalipse poderia descer a qualquer momento. A escassez de recursos — petróleo, água potável, alimentos — havia transformado a sociedade americana em um barril de pólvora prestes a explodir. Nas telas das televisões, os âncoras da Vault-Tec repetiam mantras de otimismo forçado: "Prepare-se para o futuro. O futuro é seu." Mas por trás das cortinas de percal e das cercas brancas dos subúrbios modelo, os cidadãos comuns acumulavam latas de Cram e garrafas de Nuka-Cola Quantum em porões improvisados. A ameaça nuclear não era mais uma hipótese — era uma questão de quando, não de se. Em meio a esse cenário de histeria contida e propaganda patriótica, dois destinos estavam prestes a se entrelaçar, tecendo uma história que ecoaria por séculos nas terras devastadas que viriam depois. Nate — O Soldado Forjado no Gelo Nathaniel "Nate" Jackson nasceu em Detroit, Michigan, em 2048. Detroit, outrora símbolo da potência industrial americana, agora era uma cidade fantasma de fábricas abandonadas e estacionamentos vazios, onde os sem-teto se aglomeravam ao redor de fogueiras acesas em tambores de óleo. Foi ali, nas ruas de asfalto rachado e prédios cobertos de grafites, que Nate aprendeu as duas lições que o acompanhariam pela vida: sobreviver e lutar. Sua pele escura, herança de uma família que remontava aos primeiros dias da reconstrução pós-guerra civil americana do século XXI, era como aço temperado sob o sol do meio-oeste. Quando completou dezoito anos, não havia muitas opções. As universidades estavam fechando suas portas para quem não tivesse patrocínio corporativo, e os empregos civis eram disputados como os últimos pedaços de pão em um açougue. O exército, sempre de braços abertos para jovens fortes e desesperados, foi o caminho natural. Nate subiu na hierarquia com a velocidade de quem não tinha nada a perder e tudo a provar. Sua cabeça raspada, barba cerrada e negra como carvão, e olhos castanhos que carregavam a fadiga de quem já vira demais aos vinte e poucos anos, tornaram-se uma imagem familiar nos campos de treinamento. Ele era disciplinado, focado, e acima de tudo, leal — uma qualidade rara naqueles tempos de deserções e motins. A Batalha de Anchorage Em janeiro de 2075, o Exército dos EUA lançou a ofensiva para retomar Anchorage, no Alasca, que havia caído sob ocupação chinesa no ano anterior. A campanha foi brutal — temperaturas que chegavam a 50 graus negativos, campos minados camuflados pela neve, e soldados chineses equipados com armas de energia stealth que os tornavam visíveis apenas quando já estavam atirando. O Sargento Nate Jackson liderava um esquadrão de doze homens. Sua missão: flanquear uma posição inimiga nas Montanhas Chugach. O que ele não sabia era que os chineses haviam antecipado o movimento. Quando sua unidade atravessou o desfiladeiro, o céu se iluminou com fogo de plasma. O combate durou seis horas. Nate viu seus amigos morrerem um por um — o Cabo Miller com o peito aberto por uma rajada de laser, a Soldado First Class Chen atingida por estilhaços de uma granada. No final, apenas três homens restavam. Foi então que um disparo de rifle de alta potência acertou Nate na perna direita, destruindo sua tíbia e parte do joelho. Ele caiu na neve que rapidamente se tingiu de vermelho. Um soldado inimigo se aproximou para dar o tiro de misericórdia. Nate, com o sangue congelando nas veias e a visão turva pela perda sanguínea, ainda conseguiu sacar sua pistola e acertar o oponente entre os olhos. Foi seu último ato consciente por três dias. A Dispensa e a Volta para Casa Nate acordou em um hospital militar em Seattle. A perna direita fora reconstruída com ligamentos sintéticos e uma placa de titânio, mas os médicos foram claros: ele nunca mais teria a mobilidade completa. Uma claudicação discreta, quase imperceptível, mas suficiente para encerrar sua carreira nas forças de combate. O Exército o dispensou com honras em junho de 2075. Ele recebeu a Estrela de Prata por bravura, uma pensão vitalícia como oficial reformado, e um aperto de mão frio de um general que já estava pensando na próxima batalha. Nate voltou para Detroit, mas Detroit não era mais seu lugar. A cidade cheirava a desespero e derrota. Ele precisava recomeçar. Foi em um bar próximo à Universidade de Michigan, em Ann Arbor — para onde viajara para tratar de documentos da pensão — que ele viu Katherine pela primeira vez. Katherine — A Filha da Costa Leste Katherine Elizabeth Whitmore nasceu em Manhattan, Nova York, em 2052. Seus pais eram advogados corporativos da Poseidon Energy, gente acostumada a jantares de gala e apertos de mão que valiam milhões. Katherine cresceu em um apartamento no Upper East Side, com vista para o Central Park, onde as árvores ainda eram verdes graças aos subsídios federais para manutenção de parques. Sua mãe, Margaret Whitmore, esperava que Katherine seguisse seus passos — uma carreira brilhante em direito corporativo, um casamento vantajoso, e a segurança que apenas o dinheiro e as conexões podiam proporcionar. Mas Katherine, desde cedo, mostrou uma veia mais idealista. Os cabelos loiros na altura dos ombros, presos em um rabo de cavalo quando estudava, e os olhos azuis que miravam os livros com a intensidade de quem buscava justiça em um mundo injusto, escondiam uma mente afiada e um coração inquieto. Ela ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Michigan em 2073, em parte para escapar da bolha nova-iorquina, em parte porque Michigan ainda tinha um dos poucos programas de direito público que não haviam sido totalmente desmantelados pelos cortes orçamentários federais. Foi lá, em um bar sujo próximo ao campus frequentado por estudantes e veteranos, que ela encontrou Nate. O Encontro A noite de sexta-feira no The Rusty Cog era barulhenta — uma jukebox tocando músicas antigas de antes da guerra dos recursos, o cheiro de cervas baratas e gordura de fogão. Nate estava sentado sozinho em uma mesa de canto, bebendo um uísque vagabundo e tentando não pensar em Anchorage. Sua claudicação estava pior com o frio, e ele mancara seis quadras até o bar. Katherine entrou com duas amigas, rindo de algo que Nate não pôde ouvir. Ela usava um suéter azul desbotado e calças de veludo cotelê — vestimentas que contrastavam com os uniformes militares da maioria dos frequentadores. Seus olhos azuis percorreram o ambiente até pousarem nele. Por um momento, Nate sentiu-se exposto, como se ela pudesse ver através da camada de estoicismo que ele construíra ao redor de si mesma. — Essa cadeira está ocupada? — perguntou ela, indicando o banco à sua frente. Ele balançou a cabeça negativamente. — Está mancando — disse ela, sentando-se sem cerimônia. — Guerra do Alasca? Nate ergueu uma sobrancelha. — Leio os jornais — completou ela, com um meio sorriso. — Meu pai queria que eu fosse relações públicas da Poseidon. Aprendi a ler pessoas. Conversaram até o bar fechar. Ele falou sobre Detroit, sobre o exército, sobre a neve vermelha de sangue. Ela falou sobre Nova York, sobre a guerra, sobre como o direito ainda podia ser uma ferramenta de esperança. No final da noite, Nate ofereceu para acompanhá-la até o dormitório. Ela aceitou. O resto, como dizem, é história. Casamento e a Decisão de Mudar Eles se casaram em uma pequena cerimônia em Ann Arbor em 15 de setembro de 2076. Ninguém da família de Nate pôde comparecer — seus pais haviam falecido anos antes, vítimas da gripe de 2070. Os Whitmore enviaram um telegrama de felicitações e um cheque substancial, mas não compareceram. Katherine não pareceu se importar. — Eles vivem em um mundo que não existe mais — disse ela, segurando as mãos de Nate diante do juiz de paz. — Você é meu mundo agora. Após a lua de mel — uma semana modesta em um lago no norte do estado, onde nadaram em águas frias e fizeram amor sob o céu estrelado — o casal tomou uma decisão: deixar Michigan. Ann Arbor era uma cidade universitária em declínio, e Detroit estava além da salvação. O leste, pensaram, poderia oferecer mais oportunidades. Boston surgiu como a escolha natural. A cidade ainda mantinha uma economia relativamente estável, com os estaleiros navais trabalhando dia e noite para reparar os navios danificados na Guerra do Pacífico, e um setor de serviços jurídicos em expansão graças às leis marciais cada vez mais complexas. Além disso, o subúrbio de Concord, especificamente o desenvolvimento planejado de Sanctuary Hills, oferecia casas modelo do futuro — seguras, eficientes e, o mais importante, acessíveis para veteranos. Sanctuary Hills — O Sonho Suburbano A casa na 221 de Spruce Lane era uma House of Tomorrow, modelo padrão da década de 2070: paredes de concreto armado pintadas de branco, janelas amplas com vidros duplos, um pequeno quintal cercado por uma cerca branca de madeira sintética. O interior era modesto mas funcional — sala de estar integrada com cozinha, dois quartos, um banheiro e uma garagem coberta onde Nate planejava montar uma pequena oficina. O preço era razoável, especialmente com o subsídio militar. Nate usou parte de sua pensão para pagar a entrada, e Katherine complementou com economias de sua família — aceitas com relutância e apenas depois de muita negociação. A mudança ocorreu em novembro de 2076, sob um céu acinzentado que ameaçava neve. Os vizinhos eram um misto de veteranos como Nate, funcionários públicos e algumas famílias de executivos da General Atomics International. As ruas eram limpas, os gramados aparados, e à noite os postes de luz emitiam um zumbido reconfortante — o som da civilização ainda funcionando, ainda acreditando no progresso. Codsworth Duas semanas após se instalarem, Nate comentou em um jantar que as tarefas domésticas estavam consumindo mais tempo do que ele gostaria. Ele ainda sentia dores na perna, e Katherine passava horas na biblioteca pública estudando para a prova da ordem — que ela faria na primavera de 2077. — Poderíamos comprar um Mr. Handy — sugeriu Katherine, enquanto lavava a louça jantar. — Os novos modelos estão em promoção por causa do fim de ano. Nate hesitou. Robôs domésticos eram caros, mesmo com desconto. Mas os proventos de oficial reformado cobriam as contas básicas com certa folga, e Katherine havia conseguido um estágio não-remunerado em um escritório de advocacia de Boston. O tempo era, de fato, um recurso mais escasso do que dinheiro. Eles adquiriram o modelo mais recente da General Atomics International — um Mr. Handy de corpo arredondado, três braços articulados terminados em ferramentas versáteis, e um único olho ocular que brilhava em um tom azul suave. A entrega foi feita na primeira semana de dezembro. — Precisamos dar um nome a ele — disse Katherine, enquanto o robô flutuava silenciosamente pela sala de estar, analisando o ambiente com seus sensores. — O manual diz que eles respondem melhor quando têm um nome próprio. Nate sugeriu "Rob", sem muito entusiasmo. Katherine revirou os olhos com um sorriso. — Que tal Codsworth? — propôs ela. — É um nome inglês antigo. Significa "conselheiro valente". Meio pomposo para um aspirador de pó voador, mas... acho que combina. Nate deu de ombros, mas estava satisfeito. Ele gostava de vê-la feliz. — Codsworth — disse o robô, ativando seu sintetizador vocal. — Nome reconhecido. Protocolos de identificação atualizados. Bom dia, Sr. Jackson. Bom dia, Sra. Jackson. Codsworth está à sua disposição. O pequeno gesto de Katherine ao ouvir o "Bom dia" do robô — um toque na cintura de Nate, um riso contido — valeu cada centavo. Integração à Família Codsworth rapidamente se tornou mais do que um eletrodoméstico. Ele limpava a casa com eficiência metódica, preparava refeições básicas (embora suas tentativas de ensopado fossem notoriamente salgadas demais), e até fazia pequenos reparos quando alguma coisa quebrava. Mas sua maior contribuição foi, talvez, emocional. Nate, que ainda tinha pesadelos com Anchorage, começou a encontrar no robô uma presença constante e previsível em meio ao caos do mundo. Codsworth não dormia, não o julgava, e sempre tinha uma xícara de café à espera quando Nate acordava suando frio às três da manhã. Katherine, por sua vez, tratava Codsworth como se fosse um amigo de longa data. Ela conversava com ele enquanto estudava, explicava seus raciocínios jurídicos em voz alta ("Codsworth, você acha que a Décima Emenda ainda tem algum significado prático?"), e às vezes dançava pela cozinha com ele quando uma música animada tocava no rádio. Codsworth, com sua programação de personalidade que aprendia com a interação, desenvolveu maneirismos próprios. Ele se referia a Katherine como "Minha senhora" e a Nate como "Patrão", mas o tom era afetuoso, quase familiar. No Natal de 2076, Katherine pendurou um pequeno enfeite em um de seus braços. Codsworth carregou aquele enfeite por toda a temporada, recusando-se a usar qualquer outro. 2077 — A Chegada de Shaun A primavera de 2077 trouxe duas grandes notícias. A primeira: Katherine passou na prova da ordem com distinção, tornando-se oficialmente uma advogada licenciada para atuar no estado da Comunidade de Massachusetts. A segunda, anunciada em uma noite de maio, foi mais pessoal. — Você vai ser pai — disse ela, segurando um exame de farmácia com as duas mãos trêmulas. Nate, que estava sentado no sofá assistindo a mais um noticiário sobre as tensões na Zona do Canal do Panamá, desligou a televisão com um estalo. Seus olhos castanhos, normalmente cansados, brilharam com uma intensidade que Katherine nunca vira. — Um filho — murmurou ele. — Nosso filho. A gravidez foi complicada. O estresse constante da guerra iminente, combinado com as noites mal dormidas de Katherine estudando para a certificação profissional, cobrou seu preço. Mas Nate a mimava com um zelo quase militar — horários rígidos, dieta controlada, exercícios supervisionados. Codsworth, por sua vez, tornou-se um zelador obsessivo, medindo a temperatura ambiente com seus sensores a cada cinco minutos e oferecendo chá de ervas (sem cafeína) a cada hora. Shaun Nathaniel Jackson nasceu no Hospital Geral de Boston em 15 de agosto de 2077. Pesava 3,2 quilos, media 48 centímetros, e tinha os olhos azuis da mãe — pelo menos até que a cor permanente se definisse. Sua pele era um tom de café com leite, herança da ancestralidade mesclada, e seus primeiros choros foram tão potentes que a enfermeira-chefe comentou: "Esse menino veio com os pulmões calibrados para o exército." Nate segurou o filho com as mãos que haviam matado e que agora tremiam de uma alegria que ele julgava ter perdido em Anchorage. Katherine, exausta mas radiante, observava dos lençóis do hospital. — Shaun — sussurrou ela. — Shaun Nathaniel Jackson. Bem-vindo ao mundo. Os Planos para o Futuro Semanas se passaram. O mundo lá fora continuava a desmoronar — a China havia recapturado Xangai, a União Soviética ameaçava invadir o Alasca pelo oeste, e as notícias falavam em "retaliação preventiva" e "opções táticas nucleares". Mas dentro da casa de Sanctuary Hills, o tempo parecia ter desacelerado. Nate, agora com 29 anos, começou a pensar seriamente em um trabalho civil. Sua pensão como oficial reformado era suficiente para as necessidades básicas, mas Katherine havia parado de trabalhar para cuidar de Shaun, e as economias não durariam para sempre. Ele atualizou seu currículo — com ajuda de Codsworth, que mostrou uma habilidade surpreendente para formatação — e enviou candidaturas para vagas de segurança em escritórios corporativos, treinador militar em academias particulares, e até mesmo instrutor em programas de defesa pessoal para civis. — Vou encontrar algo — disse ele a Katherine, que amamentava Shaun na cadeira de balanço. — Talvez na RobCo. Eles têm contratos com veteranos. Katherine assentiu, mas seus pensamentos estavam em outro lugar. Ela havia se formado no primeiro semestre de 2077, e a carteira da ordem ainda cheirava a tinta fresca. Escritórios de advocacia ainda contratavam, apesar da guerra — talvez por causa da guerra, com as leis de racionamento, requisição de propriedades e tribunais marciais. Havia oportunidades. — Eu posso começar a mandar currículos na próxima semana — disse ela, ajustando Shaun em seu colo. — A Sra. Turner da biblioteca disse que conhece alguém no escritório do Procurador Distrital. Nate se aproximou, ajoelhando-se diante da cadeira com um grunhido abafado (o joelho ainda o traía). Ele olhou para Katherine, para Shaun, para a sala de estar com a mobília modesta mas arrumada, e finalmente para a janela onde o sol poente de outono pintava as cercas brancas de laranja. — Vamos ficar bem — disse ele, e não era uma pergunta. Katherine sorriu, tocando o rosto dele com a mão livre. — Vamos. À distância, no entanto, as sirenes da Defesa Civil começaram a soar. Era apenas mais um teste — o terceiro naquela semana. Os alto-falantes portáteis instalados nos postes ecoaram a mensagem familiar: "Em caso de ataque nuclear, dirijam-se ao abrigo mais próximo. Permaneçam calmos. Permaneçam juntos. Permaneçam vivos." Nate fechou os olhos por um momento. Lembrou-se do gelo, do sangue, dos gritos. Depois abriu-os novamente e olhou para o filho. — Codsworth — chamou, sem tirar os olhos de Shaun. — Sim, patrão? — Verifique os mantimentos no porão. E as baterias do rádio. — Imediatamente, patrão. Katherine o observou, compreendendo o que não precisava ser dito. Fora das janelas de Sanctuary Hills, o mundo se preparava para o fim. Mas dentro daquela casa, por enquanto, ainda havia vida. Ainda havia amor. Ainda havia esperança, frágil e teimosa como as primeiras flores após um inverno nuclear. O ano era 2077. O outono se aproximava. E a história deles estava apenas começando
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